Análise: BC dos EUA transforma boas notícias em más notícias

Narayana Kocherlakota

(Bloomberg) -- Teste rápido! Os eventos a seguir são boa notícia ou má notícia para o banco central dos EUA (Federal Reserve)?

  • A China anuncia planos para construir muitas siderúrgicas.
  • Inovações permitem extração mais barata de petróleo e gás natural.
  • Avanços de robótica permitem que fábricas produzam mais com menos trabalhadores.

Em princípio, tudo isso reduz a inflação. Com maior capacidade siderúrgica, os preços do aço tendem a diminuir. Com melhores tecnologias de extração, os preços de petróleo e gás natural tendem a recuar. Já os avanços de robótica pesam sobre salários e preços.

Deveria ser boa notícia. Pelo menos no médio prazo, isso significaria que a inflação seria menor para determinado nível de desemprego. Assim, o Fed poderia gerar mais emprego sem violar seu mandato de manter a inflação anual em 2%. De fato, no mundo dos bancos centrais, é difícil pensar em notícia melhor.

Mas duvido que o Fed enxergue desta forma. Por que? Para conseguir maior nível de emprego, precisaria manter os juros baixos por período mais longo do que o previsto. Ou iniciar um novo programa de compra de ativos. Desconfio que o Fed relutaria muito em fazer isso.

A instituição vem apertando a política monetária desde maio de 2013, quando seu então presidente Ben Bernanke anunciou a intenção de iniciar a redução gradual das compras de ativos.

O Fed vem fazendo isso, embora as pressões inflacionárias permaneçam contidas, as expectativas de inflação estejam próximas dos menores níveis em registro e o nível de emprego para pessoas no auge da idade ativa esteja bem abaixo do que se via em 2007. O Fed deseja desesperadamente uma política monetária mais "normal", o que significa elevar os juros para mais perto do patamar onde estiveram no passado.

Ao buscar a "normalidade" em vez do objetivo teórico de inflação a 2%, o Fed pode transformar boas notícias em más notícias. Por exemplo, se o banco central não flexibiliza em resposta a qualquer um dos choques listados acima, a inflação provavelmente cede ainda mais.

As pessoas ficam com menos incentivo para gastar. Afinal, por que comprar algo agora se não ficará mais caro? E assim o crescimento econômico fica limitado.

Parece óbvio, mas bancos centrais ao redor do mundo aparentemente não querem ou não conseguem flexibilizar a política monetária em resposta a choques desinflacionários.

O desfecho provável é um mundo onde os eleitores e seus representantes percebem o avanço tecnológico e a expansão global dos negócios como ameaças à prosperidade. Não é um bom lugar de se viver.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do conselho editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

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