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KKR briga na Justiça para cancelar negócio no Brasil, dizem fontes

Devin Banerjee

(Bloomberg) -- Em 11 de maio de 2015, Jorge Fergie abriu um e-mail de um remetente anônimo. O remetente alegava que a Aceco TI, empresa brasileira de cujo conselho ele foi presidente, fazia fraude contábil e pagava propinas a funcionários do governo havia anos.

Para Fergie, chefe da gigante de private equity KKR & Co. na América Latina, a acusação foi surpreendente. A KKR havia fechado a aquisição da empresa de centros de dados por US$ 700 milhões, incluindo dívidas, apenas 11 meses antes.

O negócio foi o primeiro da KKR no Brasil, anunciado como um "marco importante" para uma empresa que ajudou a criar o setor de private equity em 1976. A KKR agora realizou a baixa contábil de seu investimento na Aceco, de US$ 475 milhões para zero, disseram pessoas com conhecimento do assunto.

Hoje, o destino da Aceco, que tem sede em São Paulo, depende de uma batalha legal entre a KKR, liderada por seus bilionários fundadores Henry Kravis e George Roberts, e o coproprietário e ex-CEO da companhia, Jorge Nitzan. Um juiz de São Paulo está analisando provas de ambos os lados e determinará se a KKR pode recuperar os prejuízos e, em caso afirmativo, quanto do total.

Nas últimas semanas, Nitzan entrou na sede da Aceco para tentar recuperar o controle da atual gestão, disseram as pessoas, que pediram anonimato por estarem discutindo detalhes privados. No início do ano, uma entidade controlada por ele comprou a maior parte das dívidas da Aceco do Banco Bradesco em uma tentativa de aumentar sua participação na companhia, disseram as pessoas.

"O sr. Nitzan atualmente está tentando salvar a Aceco e sua empresa controladora", um veículo de aquisições criado para a transação de 2014, "de uma recuperação judicial quase certa e restaurar a posição anterior da Aceco em seu setor, em parte para evitar a demissão por atacado de centenas de funcionários leais", escreveu Maria Cristina Cescon, advogada de Nitzan, em comunicado enviado por e-mail.

"A KKR assumiu o controle da Aceco pouco antes do catastrófico colapso da economia brasileira e do governo (principal cliente da Aceco) e da significativa depreciação da moeda brasileira", escreveu Cescon. "O momento não poderia ter sido pior e foi exacerbado pelo mau gerenciamento após a aquisição. Agora a KKR está tentando desfazer o negócio e culpar os demais por sua aquisição inoportuna."

Além de enfrentar Nitzan, a KKR está em arbitragens legais com outras entidades das quais adquiriu a companhia. Essa lista inclui a empresa private equity General Atlantic, com sede em Nova York, e Debora Staley, irmã de Nitzan e esposa do CEO do Barclays, Jes Staley, disseram as pessoas.

Representantes da General Atlantic e da Aceco disseram que não podem comentar o assunto enquanto o processo de arbitragem estiver em andamento. Não houve retorno às mensagens telefônicas enviadas a Debora Staley.

"Acreditamos que fomos defraudados pelos vendedores da Aceco e estamos buscando a recuperação de prejuízos relacionados a fraudes e corrupção cometidas pela antiga direção da companhia", informou a KKR em comunicado enviado por e-mail. "O assunto como um todo foi levado perante as autoridades brasileiras e respeitamos esse processo."

Repensando investimentos

O infortúnio da KKR no Brasil ocorre em um momento em que diversas empresas internacionais de private equity estão repensando investimentos no país, abatido pela recessão econômica e pela crise política. Um exemplo é a TPG, fundada pelos bilionários Jim Coulter e David Bonderman. A empresa planeja reduzir o pessoal e poderá fechar seu escritório em São Paulo devido à falta de negócios interessantes, disseram pessoas com conhecimento das decisões em agosto.

O Carlyle Group, liderado por um trio de bilionários americanos, precisou injetar dinheiro, inclusive dos bolsos de seus sócios, na Urbplan Desenvolvimento Urbano. A incorporadora imobiliária brasileira enfrenta centenas de processos judiciais que a acusam de não ter concluído construções residenciais em todo o país.

"Trata-se, em essência, de um colapso", disse Tony James, presidente da Blackstone Group, maior empresa de private equity do mundo, sobre o Brasil, em novembro de 2015.

Na semana passada, a Bloomberg teve acesso aos resultados de uma investigação realizada pela KPMG para o conselho da Aceco, em relatório com data de 3 de março. O documento apresentava um cronograma de acontecimentos que incluía a data e a natureza da primeira mensagem com denúncia para Fergie, da KKR. Uma segunda acusação apareceu em novembro de 2015, segundo o relatório.

A Aceco, que constrói e mantém centros de dados no Brasil e em outros nove países latino-americanos, fez mais de R$ 57 milhões (US$ 16 milhões) em pagamentos indevidos de 2012 a 2014, inclusive para "entidades de fachada" ligadas a funcionários de governo cujos departamentos concederam negócios à companhia, apontou a investigação da KPMG.

Receita da Copa

Além dos pagamentos, o relatório da KPMG afirma que a Aceco registrou receitas indevidas alocando muitos dos encargos a obras em andamento, incluindo obras para a Copa do Mundo Fifa 2014. A Aceco também teria inflado as margens de pelo menos dois projetos importantes, alocado indevidamente excessos de custos de projetos que estouraram o orçamento para contratos que estavam abaixo do orçamento e acelerado receitas sem justificativa.

Essas supostas atividades resultaram no registro inapropriado de pelo menos R$ 37 milhões em receitas em 2013 e de pelo menos R$ 102 milhões em 2014, apontou a investigação. A Aceco, que conta com cerca de 750 funcionários, divulgou receita líquida de R$ 682 milhões em 2014.

"A magnitude da má conduta, a maneira como a má conduta foi cometida, o fato de que a direção da empresa estava diretamente envolvida na má conduta, monitorando inclusive seu impacto financeiro, e o fato de que a má conduta teve ligação com os maiores e mais destacados projetos da Aceco reflete o fato de que essa má conduta era sistêmica", afirma o relatório.

Um representante da KPMG afirmou que a empresa não poderia comentar conclusões específicas devido à confidencialidade do cliente. "Realizamos os serviços para o nosso cliente de forma profissional e reiteramos nosso trabalho", afirmou a empresa por e-mail.

O representante da Aceco e Maria Cristina Cescon, a advogada de Nitzan, não comentaram as conclusões da KPMG.

A Deloitte Touche Tohmatsu, que auditou as finanças da Aceco, afirmou que os relatórios referentes a 2013 e 2014 "não devem mais ser utilizados por seus usuários", segundo aviso de 25 de agosto publicado no website da Aceco. Uma representante da Deloitte disse por e-mail que não comentaria o assunto por uma questão de confidencialidade do cliente.

Depois que um informante abordou a polícia no Brasil, foi aberta uma investigação sobre as acusações à Aceco, segundo registro público do caso em São Paulo.

Em meio à arbitragem entre KKR, Nitzan e outras entidades, os negócios no Brasil ensaiam uma recuperação. Transações nas quais empresas estrangeiras compraram ativos brasileiros quase quadruplicaram, para US$ 11,1 bilhões, no terceiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados compilados pela Bloomberg. Este é o melhor resultado desde os últimos três meses de 2013.

Em pesquisa de julho da Associação Latino-americana de Private Equity e Capital de Risco e da Cambridge Associates, 59 por cento dos investidores de fundos de private equity de fora da América Latina disseram que planejavam aumentar suas apostas no Brasil por meio de fundos dedicados ao país. Entre os investidores baseados na América Latina, a fatia foi de 23 por cento.

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