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Análise: Pontos em comum e divergentes no BC dos EUA

Mohamed El-Erian

(Bloomberg) -- A ata da reunião de setembro do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) publicada na quarta-feira explicou por que três integrantes do conselho do Fed discordaram "por pouco" da decisão majoritária de manter os juros inalterados.

A tão aguardada transcrição revela informações sobre acontecimentos internos e externos, ilustrando a "incerteza incomum" que os responsáveis pela política econômica precisam enfrentar.

A transcrição é um lembrete importante do quanto se tornou difícil manter um alto nível de convicção em relação à política certa em uma época de tanta fluidez no ambiente econômico, financeiro, político e institucional.

A seguir, as principais conclusões, inclusive aquelas em que parece haver um amplo consenso, aquelas em que há diferenças e, por último, aquelas em que faltou desempate.

As autoridades do Fed concordam que "o mercado de trabalho continuou fortalecendo-se" e que é altamente provável que continue assim durante o próximo período. Como resultado, estima-se que a atividade econômica continuará se expandindo "a um ritmo moderado".

As autoridades também concordam que as condições econômicas externas, como as repercussões do referendo do Brexit, estavam menos ameaçadoras. Além disso, afirmaram que "as condições financeiras globais melhoraram um pouco nos últimos meses". Isso consolidou a perspectiva de que "os riscos de curto prazo no panorama econômico" estão, "a grosso modo, equilibrados".

Em relação aos detalhes dos acontecimentos no mercado de trabalho dos EUA, as autoridades observaram devidamente que é necessário analisar mais "os distintos padrões de desemprego em grupos raciais e étnicos que se mantêm após levar em consideração a escolaridade". Isso se justifica e é importante, especialmente levando em conta até que ponto o crescimento (que, para começar, tem sido baixo demais) foi insuficientemente inclusivo.

As autoridades do banco central também parecem unidas ao admitir um fenômeno que está chamando mais atenção analítica em vários trimestres: "a aparente queda, nos últimos anos, da taxa de juros real neutra -- ou r*". É uma referência à taxa de "equilíbrio" -- a taxa que nem estimula nem restringe o crescimento e a inflação estável.

No entanto, embora tenham mencionado fatores que contribuem para a redução da r*, afirma-se que as autoridades discordaram em relação à magnitude e à durabilidade da queda.

Isso nos leva às áreas onde as autoridades do Fed ainda não chegaram ao mesmo ponto de vista.

Elas discordaram em relação à flexibilidade geral que resta na força de trabalho. Alguns "julgaram que restava pouca ou nenhuma inatividade no mercado de trabalho", mas um número maior sentiu que havia mais. O relatório sobre emprego de setembro, publicado depois da reunião, não ajuda a resolver essa divergência.

As diferentes percepções são mais que um reflexo da dificuldade inerente de julgar o potencial para um aumento da taxa de participação no mercado de trabalho que, infelizmente, continua perto demais dos valores mais baixos em várias décadas.

Também existe uma verdadeira incerteza em relação ao processo atual de definição salarial, especialmente no contexto da crescente influência da tecnologia.

Por causa dessas diferenças, não deveria surpreender a afirmação de que "a decisão nesta reunião foi por pouco". Afinal, as considerações econômicas estão bastante equilibradas. Na verdade, como argumentei anteriormente, é difícil esperar que surja uma posição de desempate.

Mas isso não significa que ela não exista. Simplesmente, parece que as autoridades do Fed hesitam em adotá-la abertamente.

Embora a ata contenha alguma menção ao risco de alavancagem excessiva, assim como ao perigo de poupanças maiores devido a ameaças à eficácia institucional de provedores de longa data de serviços financeiros (como pensões, doações e seguros de vida), as autoridades do Fed parecem ter evitado discutir como a dependência prolongada de juros extremamente baixos (e negativos na Europa e no Japão) está aumentando o risco de instabilidade econômica e financeira no futuro.

Se as autoridades tivessem levado em conta essas circunstâncias, uma decisão compreensivelmente "por pouco" em relação às considerações econômicas teria se transformado em um argumento para elevar os juros e poderia ser um lembrete para os participantes do mercado de que este ciclo será estranhamente raso, com aumentos de ritmo irregular e um desfecho muito abaixo das médias históricas.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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