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Nova crueldade na Venezuela: bens inacessíveis nas prateleiras

Fabiola Zerpa e Nathan Crooks

(Bloomberg) -- Uma coisa estranha começou a aparecer nos supermercados venezuelanos: comida.

Após anos de escassez até dos itens mais básicos, as prateleiras voltaram a sentir o peso de bens importados como maionese e margarina do Brasil ou café e arroz da Colômbia. Contudo, a nova abundância tem um preço. Muitos compradores não podem pagar por estes produtos.

"Há azeite e pão, mas é impossível pagar os preços", disse Verónica Parra, professora de compras na área leste de Caracas. "Eu ganho mais do que o salário mínimo, mas mesmo assim terei que limitar o que compro".

Sem anunciar qualquer mudança formal na política, o governo da Venezuela começou a deixar de impor controles de preços nas lojas privadas. Donos de lojas informam que não veem inspetores desde julho.

Em vez disso, o governo ordenou aos fornecedores vender metade de seus produtos ao sistema de distribuição estatal, conhecido como CLAP, que entrega alimentos subsidiados aos pobres do país. O restante pode ser vendido ao preço que eles quiserem.

"Houve uma correção de preços por meio de um ajuste sujo que vem sendo realizado pelo governo", disse Asdrúbal Oliveros, diretor da Ecoanalítica, uma consultoria econômica com sede em Caracas. "Sujo porque não houve qualquer reforma econômica de fato, mas o governo tem ignorado os controles aplicados previamente sobre a importação de itens não essenciais".

Sistema duplo

Existe um sistema duplo de compras: o governo abastece a rede CLAP e lojas reguladas por ele com produtos adquiridos com uma taxa de câmbio preferencial de somente 10 bolívares por dólar. Ao mesmo tempo, o setor privado estoca prateleiras usando dólares adquiridos com uma taxa de câmbio secundária, conhecida como Simadi, de cerca de 660 bolívares por dólar, ou com a taxa ainda mais cara do mercado paralelo, disse Oliveros.

Contatado por telefone e consultado sobre a política de imposição de controles de preços do governo, o Ministério da Informação da Venezuela não deu retorno.

Porém, em muitos casos, os preços não apenas atingiram os patamares internacionais, mas também os superaram por muito, sendo que importadores e produtores compensam prejuízos pelas vendas ao sistema estatal cobrando preços excessivamente altos a outros consumidores.

Catchup importado

O catchup Heinz importado em uma loja de Chacao, um bairro exclusivo de Caracas, é vendida a 6.670 bolívares, quase US$ 7 com a taxa de câmbio ilegal das ruas, em comparação com US$ 2,50 nos EUA pela Amazon.com. O preço equivale a 10% do salário mínimo mensal, de cerca de 65.000 bolívares, fora do alcance da maioria dos venezuelanos.

Desde que o governo começou a enviar cestas da CLAP com produtos como farinha de milho, pasta, açúcar e café neste ano, as entregas têm sido irregulares no melhor dos casos, e a oposição denunciou que opositores políticos do impopular governo socialista são excluídos do sistema. Além disso, as cestas apareceram no mercado clandestino, disponíveis para compra a preços mais altos.

"Esta nova oferta não estará disponível para os mais necessitados", disse Marco Ponce, diretor do Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais. "A situação de insegurança alimentar continua, porque a Venezuela não resolveu seu problema básico - a paralisia da produção local".

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