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Análise: Vale do Silício não tentará salvar banda larga

Leila Abboud e Shira Ovide

(Bloomberg) -- O Facebook está criando drones que transmitirão wi-fi nas zonas rurais da África. O Google está implementando linhas de fibra óptica para conectar casas e negócios em Kansas City e Atlanta. E agora a Amazon está pensando em adicionar banda larga ao leque de serviços que oferece na Europa com seu programa de fidelidade, Prime, de acordo com o site de tecnologia The Information.

É o suficiente para nutrir uma fantasia coletiva de que as ações audaciosas das empresas do Vale do Silício consertarão a indigna e excessivamente cara banda larga que assola muitos usuários. Infelizmente, o sonho de uma banda larga veloz e barata para todos continua sendo apenas um sonho na maior parte do mundo.

Nos EUA, o domínio de um punhado de empresas de cabo e telecomunicações deixa a maioria dos americanos com poucas opções de banda larga. Por isso, os americanos pagam mais do que as pessoas de outros lugares, muitas vezes por um produto inferior.

A situação é melhor em lugares como o Japão e a Coreia do Sul, onde o governo subsidiou a construção de redes de fibra óptica velozes, ou a Europa, onde os órgãos reguladores exigem que as maiores empresas de telecomunicações aluguem para concorrentes o acesso a suas linhas fixas.

No entanto, ninguém conseguiu ainda encontrar um modo perfeito de convencer empresas de capital aberto, que precisam satisfazer aos acionistas, a investir em uma infraestrutura que calcule o tempo de reembolso em décadas.

Os mercados de cabo e telecomunicações tendem a se tornar oligopólios por causa dos enormes requisitos de dispêndio de capital e economias de escala, o que, por sua vez, mantém os preços altos para o consumidor, a menos que os órgãos reguladores intervenham. Mas, se os reguladores forem longe demais, as operadoras de redes reclamam e ameaçam reter o gasto de capital que não tenha retornos garantidos.

É aí que entra o sonho com o Vale do Silício. Será que as grandes mentes do Google e da Amazon podem resolver esse problema? Não há dúvida de que contam com os meios para isso.

Os primeiros indícios, no entanto, não são bons. O Google parece inseguro em relação a seu compromisso com o projeto Google Fiber, que existe há seis anos e busca construir redes de banda larga de alta velocidade, e com o intrigante serviço móvel de baixo custo Project Fi.

A receita do Google Fiber foi de aproximadamente US$ 100 milhões em 2015, de acordo com a imprensa, o equivalente a cerca de 0,1% da receita total da matriz do Google no ano passado. A principal prioridade de Mark Zuckerberg é expandir o acesso à internet em todo o planeta, mas o Facebook encontrou obstáculos, como objeções políticas na Índia e a recente explosão de um satélite que iria distribuir a internet.

Como fica evidente na possível incursão da Amazon na banda larga, os gigantes do setor de tecnologia dos EUA lançarão serviços de banda larga ou internet sem fio quando eles atenderem a propósitos empresariais mais amplos. No entanto, ainda não demonstraram disposição para torrar pilhas de dinheiro só para que a conexão de banda larga seja mais rápida e barata na zona rural da Inglaterra ou de New Hampshire.

Se a Amazon deseja aumentar o apelo do Prime no Reino Unido, acrescentar o serviço de banda larga é uma forma fácil e inteligente de fazer isso. O BT Group, dono da única rede nacional de banda larga do Reino Unido, é obrigado por lei a alugar sua rede a concorrentes como Sky e Vodafone -- ou a novatos como a Amazon -- a tarifas controladas. Por isso, a Amazon conseguiria vender acesso à internet lá sem precisar desembolsar muito dinheiro na construção de uma rede própria.

Isso representa uma vitória para os consumidores do Reino Unido, certo? Mais ou menos. Eles contariam com mais uma opção de banda larga. Mas, como o tráfego web circularia pela rede do BT, a Amazon não é o tipo de concorrente que poderia estimular as tão necessárias melhorias em termos de velocidade e qualidade.

Na verdade, ela está contente em pegar carona do BT porque seu objetivo é garantir a satisfação e a fidelidade dos clientes Prime, que gastam muito. A Amazon não pretende pressionar o BT tentando roubar uma fatia do mercado de banda larga do país.

Nos EUA, nada exige que as companhias de cabo e telecomunicações que possuem redes de internet próprias abram o acesso à Amazon ou a quem quer que seja. Cerca de 61% dos americanos têm acesso a uma ou nenhuma opção de provedor doméstico que ofereça um serviço veloz de banda larga, segundo a definição da Comissão Federal de Comunicações dos EUA. O acesso à internet móvel não é muito mais competitivo, porque Verizon e AT&T controlam o mercado móvel.

Esses oligopólios de banda larga e internet móvel talvez sejam os maiores obstáculos que impedem um uso mais amplo de vídeos on-line e outros serviços web. Isso ocorre no mundo em desenvolvimento, mas também se aplica aos países mais ricos. Aumentar o investimento em redes é um problema real, e as empresas de tecnologia não são a solução (ainda). Talvez isso mude, mas o Vale do Silício não parece disposto a nos levar ao paraíso da banda larga.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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