Guia da eleição dos EUA para mercados: o que merece atenção

Phil Kuntz

(Bloomberg) -- A eleição menos convencional da história americana moderna se aproxima do fim e os mercados financeiros globais apostam que o resultado será mais do mesmo -- uma democrata na Casa Branca vigiada pelos republicanos no Congresso. Depois de todas as surpresas de outubro, os investidores podem não estar preparados para outra em 8 de novembro.

A nova controvérsia gerada pelos e-mails de Hillary Clinton "não deverá provocar uma mudança drástica na corrida presidencial", disseram analistas da Evercore ISI em relatório de 30 de outubro. O maior choque seria uma vitória do republicano Donald Trump ou o domínio da Casa Branca e do Congresso pelos democratas. Os dois cenários fariam os investidores correrem para se cobrirem nos títulos mais seguros do governo, nos dólares americanos e no iene e fugirem de ações de maior risco e dos mercados emergentes, a exemplo do que ocorreu após a decisão do Reino Unido, em referendo em junho, de deixar a União Europeia. Além disso, ambos os candidatos querem ampliar os investimentos e reduzir os impostos, o que seria positivo para as ações e negativo para a renda fixa.

A seguir, uma análise sobre potenciais vencedores e perdedores, dependendo do resultado da eleição. Mas primeiro uma advertência: a reação imediata dos investidores às eleições dos EUA não costuma ser duradoura.

Ações

Vitória de Hillary: "O mercado já precificou uma vitória de Hillary", disse Margaret Yang, analista da CMC Markets em Cingapura, por telefone. "Qualquer potencial de subida será limitado se ela vencer."

Os maiores perdedores seriam as empresas financeiras e farmacêuticas.

"Uma potencial vitória democrata completa representaria um dos resultados eleitorais mais difíceis para os bancos", afirmou o Morgan Stanley Research em relatório, citando a possibilidade de regras mais rígidas e de mudanças tributárias que poderiam prejudicar empresas como Goldman Sachs e JPMorgan.

Ações contra regras de "carried interest" que beneficiam as gestoras de ativos, também previstas por Trump, prejudicariam empresas como Janus Capital Group e Waddell & Reed Financial.

Vitória de Trump: "As avaliações das ações dos EUA estão bastante elevadas e uma vitória de Trump provocará uma queda massiva", disse Yang, da CMC. Muitos considerariam isso um clássico "evento cisne negro", acrescentou, por isso a reação seria "muito mais severa" do que o Brexit, que fez o S&P 500 Index cair 5,3 por cento em dois dias enquanto os índices de referência da Europa e de outras partes perderam ainda mais. A busca dos investidores por refúgio no iene seria "um fator negativo para os exportadores japoneses", disse Yang.

Títulos

Vitória de Hillary: uma vitória da democrata inicialmente ampliaria os rendimentos porque os investidores venderiam títulos do Tesouro e optariam por ativos de maior risco, disseram analistas do Bank of America em relatório. O efeito cascata elevaria o custo do crédito para indivíduos e corporações em todo o mundo porque os títulos soberanos dos EUA são a referência global para as dívidas.

A longo prazo, uma vitória de Hillary afetaria menos os rendimentos -- desde que os republicanos mantenham o controle de uma das duas casas do Congresso -- porque seu estímulo fiscal seria relativamente pequeno, especialmente se comparado com os planos de Trump de cortes maiores nos impostos e mais investimento em infraestrutura. Uma vitória democrata completa provavelmente resultaria em mais gastos e elevaria os rendimentos.

Vitória de Trump: nas duas semanas depois que o Reino Unido surpreendeu as empresas de pesquisas e votou pela saída da UE, em 23 de junho, o rendimento dos títulos de 10 anos dos EUA caiu 39 pontos-base e retornou aos níveis pré-Brexit apenas em setembro. Algo semelhante acontecerá se Trump desafiar a sabedoria popular, disseram os analistas. O Crédit Agricole prevê uma "desconexão massiva" que derrubaria os rendimentos de 10 anos em pelo menos 10 pontos-base se ele vencer.

Quando a poeira baixar, os cortes tributários e os planos de investimento em infraestrutura de Trump poderão fazer os rendimentos subirem novamente, especialmente se os republicanos dominarem a Câmara e o Senado. O impacto poderá ser maior se a política externa isolacionista do republicano levar países com grandes somas em títulos do Tesouro a se desfazerem delas, disseram os analistas do Crédit Agricole. A generosidade fiscal também beneficiaria títulos ligados à inflação, que já registram desempenho superior ao dos títulos nominais neste ano.

Moedas

Vitória de Hillary: o dólar americano se valorizaria em relação às moedas de outros mercados desenvolvidos com a chegada da democrata à Casa Branca porque os traders concentrarão sua atenção na probabilidade de o Federal Reserve elevar os juros em dezembro, segundo a Capital Economics, empresa de pesquisa com sede em Londres. O Bank of America prevê que o dólar só se valorizaria mais adiante em um governo de Hillary se os democratas dominarem o Congresso.

Vitória de Trump: Após o choque imediato de uma vitória de Trump, o dólar americano poderá se desvalorizar em meio à alta de moedas dos mercados desenvolvidos como o iene (um refúgio tradicional), o euro, a libra e o franco gerada pela preocupação de que a China possa se desfazer de ativos dos EUA e de que o Fed possa adiar o aperto da política monetária. O dólar poderia, então, se valorizar em um horizonte de três a nove meses à medida que os republicanos introduzirem cortes nos impostos e outros estímulos fiscais para estimular o crescimento econômico, afirmou o Bank of America.

Mercados emergentes

Vitória de Hillary: Haverá mais apetite por riscos se a candidata democrata chegar à Casa Branca, o que é um bom sinal para os mercados em desenvolvimento.

Os investidores poderão responder elevando apostas em ações chinesas do setor de defesa porque Hillary se apresenta como a candidata mais hawkish, disse Francis Cheung, chefe de estratégia da CLSA para a China e para Hong Kong. As ações dos produtores de commodities do mundo em desenvolvimento poderão subir com as expectativas de que a demanda dos EUA aumentará juntamente com os investimentos em infraestrutura.

Vitória de Trump: "Não consigo pensar em nenhum país que se beneficiaria com uma vitória de Trump", disse Yang, da CMC Markets. Um relatório da Evercore mencionou um país que poderia receber um impulso, sugerindo que os investidores comprem ações russas para se protegerem contra a possibilidade de as pesquisas que indicam vitória de Hillary estarem erradas.

O Citigroup prevê uma queda imediata do MSCI Emerging Markets Index de pelo menos 10 por cento com as ações mexicanas liderando o declínio. Um possível ponto positivo para o México: construtoras como a Cemex SAB de CV podem estar em posição de assumir contratos para construir o muro proposto por Trump na fronteira.

Commodities

Vitória de Hillary: suas políticas ambientais, especialmente a promessa de combater a mudança climática, exercerá pressão sobre o carvão e o petróleo. O mercado de gás natural pode receber um impulso com sua promessa de afastar as usinas de energia do carvão usando o gás como "ponte" para uma maior dependência em relação às energias renováveis.

Vitória de Trump: os preços do gás natural provavelmente cairiam e o carvão se beneficiaria com uma vitória de Trump. Ele prometeu desfazer as regras ambientais que tiram o carvão do mercado de energia dos EUA e promoveu o "carvão limpo" em um debate. A Bloomberg Intelligence estimou em setembro que uma vitória do republicano eliminaria 11 por cento da demanda por gás natural em 2030 em relação aos níveis do ano passado, aumentando o uso do carvão.

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