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Economia forte do Reino Unido pode piorar Brexit

Jamie Murray

(Bloomberg) -- No rescaldo do resultado da eleição presidencial dos EUA, líderes da União Europeia estão dando um valor ainda mais alto à solidariedade. Então, neste ano às avessas, outra ideia deprimente deve ser considerada: o forte crescimento da economia do Reino Unido depois da votação do Brexit poderia ser uma má notícia tanto para o país quanto para o continente.

Deixe eu explicar. O quadro econômico do Reino Unido, por enquanto, se manteve muito mais bonito do que a maioria esperava. A produção cresceu 0,5 por cento no terceiro trimestre, longe da contração que muitos projetavam. Mas há bons motivos para desconfiar que o Reino Unido ainda corre perigo. A desvalorização da libra terá um efeito corrosivo sobre o poder aquisitivo das famílias e a redução dos gastos corporativos em investimento, junto com a desaceleração das contratações, provavelmente restringirá a atividade -- calculo que o crescimento econômico vai desacelerar mais nos próximos trimestres.

Mas, e se eu estiver enganado?

Imagine que os consumidores economizem menos que o esperado, que os exportadores aproveitem as oportunidades oferecidas pela desvalorização cambial e que as empresas continuem gastando. A economia do Reino Unido poderia acabar se expandindo continuamente em torno da tendência de sua taxa de crescimento nos próximos dois anos. Seria uma incrível proeza de resiliência e um alívio para aqueles que, se não fossem por isso, acabariam desempregados. Os padrões de vida continuariam mais baixos como resultado da votação do Brexit, por causa da movimentação cambial associada, mas as piores consequências teriam sido evitadas. Este deveria ser um acontecimento bem-vindo.

Mas vale a pena perguntar como isso afetaria as negociações do governo com a UE. Não muito bem, suponho.

A União Europeia concede benefícios comerciais a seus integrantes, mas alguns suportaram os custos da austeridade e de outras políticas ruins nos últimos anos. Para que a união sobreviva, Grécia, Portugal e outros países em dificuldades terão de ser convencidos de que estarão melhor dentro do que fora. Um modo de fazer isso é dar a esses países mais espaço para lidar com as consequências nefastas da austeridade. Sem mais flexibilidade, eles poderiam começar a imaginar se a vida do lado de fora poderia ser melhor.

Outra opção é tornar a saída menos atraente. Se o crescimento do Reino Unido continuar saudável, os custos de curto prazo da retirada parecerão pequenos. Para os que buscam preservar a UE, haverá um incentivo para demonstrar que os custos de longo prazo do Brexit são grandes.

O Reino Unido está em uma posição de negociação difícil. Já é provável que, a menos que mude de opinião em relação à livre circulação de pessoas, o Reino Unido vai acabar tendo impostos padronizados definidos pela Organização Mundial do Comércio. Quanto melhor o Brexit parecer, maior poderá ser a dificuldade para o Reino Unido de conseguir concessões comerciais. E, como os possíveis resultados parecem mais polarizados -- um acordo com a Noruega ou normas da OMC, com pouco no meio -- os mercados estarão turbulentos quando começarem as etapas finais de negociação.

Por isso, embora seja agradável ver que a economia do Reino Unido está se saindo tão bem, temo que boas notícias agora signifiquem más notícias depois.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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