Germes do frango evidenciam riscos do setor de aves da Índia

Natalie Obiko Pearson

(Bloomberg) -- Cientistas encontraram bactérias resistentes a medicamentos, mais fortes e com capacidade de infectar humanos escondidas em frangos na Índia, o que indica uma consequência "alarmante" do rápido crescimento da indústria avícola do país e do uso indevido de antibióticos.

Onze por cento da amostra de frangos em mercados de produtos frescos na cidade de Hyderabad, no sul do país, continham uma forma de bactéria resistente a diversos medicamentos normalmente encontrada em aves e conhecida por contagiar humanos, apontou um estudo.

Os supergermes foram detectados tanto em frangos de produção intensiva quanto em aves criadas em liberdade e conseguiram resistir aos antibióticos de rotina, disseram cientistas da Universidade de Hyderabad e do Instituto Robert Koch, em Berlim.

As descobertas sugerem que a carne contaminada pode estar espalhando superbactérias por toda a cadeia de alimentos e pelo meio ambiente, com o potencial de provocar infecções de difícil tratamento em seres humanos.

As fazendas que abastecem as maiores companhias avícolas da Índia utilizam rotineiramente antibióticos classificados pela Organização Mundial da Saúde como "criticamente importantes" para evitar doenças, apontou uma investigação realizada durante meses pela Bloomberg News na região de Hyderabad, neste ano.

"Nossas descobertas oferecem base científica para o que se sabe a respeito do uso de antibióticos no setor de animais para alimentação em meio à ausência de uma política adequada para os antibióticos no país", disse por e-mail Niyaz Ahmed, autor principal do estudo, publicado em 4 de novembro na revista científica Applied and Environmental Microbiology.

Dano ao DNA

A bactéria Helicobacter pullorum encontrada nos frangos chamou a atenção porque, além de abrigar diversos genes com resistência a medicamentos, essa classe também possui a capacidade de produzir toxinas que podem danificar o DNA das células humanas, descobriram os pesquisadores.

A pesquisa deles se baseou em um estudo dos tratos gastrointestinais de 55 aves de corte e 45 frangos de criação livre comprados em sete mercados de Hyderabad.

Mais de 100 genes virulentos foram identificados nas amostras de bactérias, incluindo 40 relacionados à motilidade, que poderiam aumentar a capacidade do patógeno de se multiplicar dentro dos tratos intestinais dos frangos e das pessoas, e 20 que aumentam a capacidade de resistência do micróbio, inclusive em aves de corpo mais quente, disseram os autores.

Alguns genes inclusive dão maior capacidade às bactérias para driblar as defesas do sistema imunológico.

Em seres humanos, acredita-se que a H. pullorum cause gastroenterite e que esteja associada ao câncer e à cirrose hepática.

"Se esse organismo utiliza a resistência antimicrobiana para aumentar sua aptidão, sua persistência e, portanto, sua transmissão, ele pode vir a ser uma ameaça significativa à saúde humana", disse Ahmed, atualmente diretor sênior do Centro Internacional de Pesquisa sobre Doenças Diarreicas de Bangladesh.

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