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Análise: Venezuela continuará assombrando mercado de petróleo

Liam Denning

(Bloomberg) -- A esta altura dos acontecimentos, os jornalistas esgotados que aguardam notícias em Viena só desejam um anúncio da Opep. Qualquer anúncio.

Para a Venezuela, um dos cinco fundadores originais da Organização de Países Exportadores de Petróleo, qualquer anúncio não serve. Todos os indicadores da economia doméstica ilustram porque a nação quer providências à moda antiga: cortes de produção para elevar a cotação do petróleo.

Mesmo se a Arábia Saudita concordar em reduzir a produção para sustentar os preços, os problemas da Venezuela não vão desaparecer. O que significa que o país continuará sendo uma grande dúvida na definição da oferta global de petróleo.

A Petróleos de Venezuela SA (PDVSA) tem problemas estruturais, não cíclicos. A estatal nunca se recuperou totalmente da greve geral e subsequente mexida nos quadros de pessoal pelo falecido presidente Hugo Chávez, em 2002 e 2003. A produção recuou mesmo durante o longo período de disparada de preços do barril depois de 2004.

Como costuma ocorrer com empresas estatais, a PDVSA foi usada como caixa eletrônico do governo. Os gastos sociais superaram os investimentos em exploração e produção de forma consistente ao longo da última década. Paralelamente, a produção migrou para o cinturão do Orinoco e o petróleo de lá é mais difícil de processar e seu preço é descontado pelo mercado. Portanto, além de produzir menos barris, a Venezuela recebe menos por barril. 

E à medida que a produção de óleo mais leve diminui, o país tem menos produto desse tipo para misturar com óleo pesado e assim conquistar a preferência das refinarias. A consequente necessidade de importar mais óleo leve efetivamente eleva o custo por barril e drena as preciosas reservas em dólar da Venezuela.

Agora, a PDVSA luta para continuar operando. Após semanas de negociações com detentores de títulos, a companhia conseguiu extensão de algumas dívidas que venceriam em breve. Fornecedoras como a Schlumberger reduziram as atividades até que algumas contas atrasadas sejam pagas. E boa parte da produção da PDVSA já está destinada a credores, como a China, ou a clientes subsidiados, como Cuba.

Diante de tantas atribulações, a PDVSA fará todo o possível para não dar calote, por medo da reação dos mercados de dívida. Se a cotação do petróleo subir a partir dos níveis atuais --talvez por conta do corte/congelamento da produção pela Opep--, a estatal e o governo venezuelano terão mais margem de manobra. No entanto, os problemas estruturais da Venezuela exigem mais do que isso.

Em um cenário extremo, a escassez de alimentos, a inflação galopante e a paralisação do referendo para destituição do presidente Nicolás Maduro podem agravar a revolta popular e até levar ao colapso da produção de petróleo, deduzindo 1,5 milhão de barris diários da oferta global.

Mesmo se o caos for evitado, os problemas da Venezuela vão assombrar o mercado de petróleo durante anos. Mesmo quando o preço do barril estava alto, a produção da PDVSA estava caindo e seu produto estava ficando mais pesado. Neste ano, a produção diária já diminuiu em 300 mil barris e pode facilmente diminuir na mesma quantidade no ano que vem. Isso seria equivalente a um quarto do aumento esperado na demanda global.

Esse movimento sustentaria os preços - mas beneficiaria principalmente rivais, como as produtoras de petróleo de xisto dos EUA, e integrantes mais estáveis da Opep, não a própria Venezuela.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do conselho editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

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