Análise: Mulheres profissionais enfrentarão mais pressão

Victoria Bateman

(Bloomberg) -- Se há algo em que os economistas tendem a concordar são os benefícios da livre circulação da mão de obra. A redução das barreiras à imigração tem o poder de adicionar até US$ 90 trilhões por ano à economia mundial, dobrando o PIB global e ofuscando o impacto de reduzir os obstáculos ao comércio e aos fluxos de capitais. Além de dar um impulso à economia, a imigração também ajudou a empoderar mulheres profissionais na economia dos EUA e do Reino Unido nos últimos 50 anos.

A chegada de mulheres profissionais no mercado de trabalho contou com o respaldo de um exército de ajudantes domésticos mal pagos -- e, frequentemente, imigrantes. De acordo com a Sociologia, o lado bom da maior iniquidade de renda na economia dos EUA e do Reino Unido em comparação com a Europa continental foi a disponibilidade de mão de obra barata que mulheres escolarizadas puderam subcontratar para se livrar de suas tarefas domésticas tradicionais, como limpar, cuidar dos filhos, cozinhar as refeições e tomar conta de idosos. No fim das contas, o que seria dos "casais poderosos" se não fosse a mão de obra mal paga formada principalmente por mulheres e imigrantes?

Nos EUA, mulheres com escolaridade se beneficiaram da disponibilidade de trabalhadores imigrantes da América Latina baratos e sem capacitação, e no Reino Unido, da mão de obra do Leste Europeu -- precisamente a mão de obra imigrante que está na mira de eleitores e governantes. A redução da imigração nos obrigará a fazer uma escolha: ou a vida se tornará mais difícil para as mulheres profissionais, ou os homens profissionais terão muito mais a fazer em casa.

Ao mesmo tempo, países que precisam de imigrantes para compensar a queda da taxa de natalidade entre os nativos não terão acesso a essa fonte. A natalidade nos EUA e no Reino Unido caiu para menos que a razão de substituição de 2,1 e a proporção de mulheres sem filhos aumentou significativamente. De acordo com o Escritório Nacional de Estatística do Reino Unido, das mulheres nascidas em 1940, nove de cada dez tiveram filhos. Em 1967, o dobro de mulheres não tinha filhos (uma de cada cinco) e, se essa tendência continuar, as estimativas sugerem que por volta de 2018 um quarto das mulheres de meia-idade não terá nenhum filho. Nos EUA, de acordo com o censo de 2014 do Escritório de Estatística desse país, 28,9 por cento das mulheres entre 30 e 34 anos não têm filhos.

Várias iniciativas de políticas recentes tiveram o objetivo de estimular as mulheres ocidentais a ter mais filhos, como incentivos financeiros (como os que são oferecidos por Cingapura e Turquia), assistência infantil subsidiada (popular na Escandinávia e, cada vez mais, no Reino Unido), licença remunerada adicional e até mesmo canções nacionais para impulsionar a natalidade e, na Rússia, um feriado nacional destinado à procriação.

A imigração, e especialmente a disponibilidade de ajuda doméstica e opções de assistência infantil, possibilita que as mulheres ocidentais façam uma escolha em relação à natalidade sem uma pressão excessiva do governo. Se os obstáculos à imigração aumentarem, existe um risco real de que essa pressão aumente, em vez de diminuir. Em um artigo acadêmico recente, os autores argumentam que o acesso das mulheres aos métodos contraceptivos contribuiu para excesso de poupança e estagnação secular. Não é muito difícil deduzir que os responsáveis pela política econômica, diante de dados demográficos desafiadores e da necessidade de impulsionar o crescimento, possam tentar incitar as mulheres à maternidade.

As tentativas de limitar a imigração na era do Brexit e de Trump não vão apenas prejudicar a economia, elas podem também limitar a vida de mulheres profissionais. Se isso acontecer, a população masculina terá que preencher parte dessa lacuna -- e 2017 pode não ser um ano de felicidade conjugal.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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