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Análise: a revolução robótica de que Donald Trump não fala

Chris Bryant e Elaine He

(Bloomberg) -- Donald Trump tende a apresentar o mercado de trabalho como um jogo de soma zero: as empresas transferiram a produção para a China e outros mercados emergentes. Ele vai levar esses empregos de volta aos EUA.

Deixar de lado por um instante que levar empregos de volta a um país com custos altos dá às empresas um incentivo para automatizar. Há um problema maior: depois de substituir os operários das fábricas dos EUA, os robôs farão o mesmo nas economias em desenvolvimento também. Vai ser difícil repatriar empregos que não existem mais.

O mundo levou 50 anos para instalar o primeiro milhão de robôs industriais. O próximo milhão vai demorar apenas oito, de acordo com a Macquarie. É importante observar que grande parte do crescimento recente aconteceu fora dos EUA, em particular na China, país onde a população está envelhecendo e os salários aumentaram.

Em alguns aspectos, é claro que isso é algo bom. O trabalho em uma linha de produção é monótono e pode ser perigoso.

No entanto, a construção de um grande setor industrial foi o caminho tradicionalmente trilhado pelas economias emergentes para elevar o padrão de vida. Agora, robôs e outros tipos de automação são uma ameaça a esse modelo de desenvolvimento. Em novembro, as Nações Unidas alertaram que dois terços dos empregos nos países em desenvolvimento correm risco.

Até mesmo um defensor dos EUA em primeiro lugar como Trump deveria estar preocupado com isso, porque as pessoas que estão entrando na classe média no Vietnã, no México ou no Egito serão possíveis consumidores dos bens exportados pelos EUA.

Por que isso poderia acontecer? Na época em que a classe média dos EUA floresceu após a Segunda Guerra Mundial, a automação fabril era cara. Os robôs foram limitados apenas a poucos setores -- principalmente a indústria automotiva -- e essas automações não eram muito sofisticadas. Os salários aumentaram porque a produtividade melhorou, mas os trabalhadores não foram completamente substituídos pelas máquinas.

Países mais pobres na Ásia ou na África provavelmente não terão a mesma sorte. Os robôs de hoje são muito mais capazes, estão sendo implementados em um leque mais amplo de indústrias e também são mais baratos. Isso deixa menos espaço para que os salários aumentem antes que os seres humanos sejam excluídos do mercado de trabalho por causa do preço. Mais automação de baixo custo também significa que a indústria pode ser transferida novamente às economias desenvolvidas.

A fabricante alemã de robôs Kuka, adquirida no ano passado pela chinesa Midea Group, estima que um robô industrial comum custa cerca de 5 euros (US$ 5,28) por hora. Os produtores gastam 50 euros por hora para empregar alguém na Alemanha e cerca de 10 euros por hora na China.

Isso evidenciou o ponto em que as companhias podem recuperar seus gastos em equipamento de automação: o período de reembolso para um robô de soldagem automotiva na China caiu para menos de dois anos, de acordo com a Macquarie. Em vez de buscar uma fonte de mão de obra ainda mais barata em outro lugar -- por exemplo, em outra economia asiática emergente --, produtores chineses estão optando por instalar mais robôs, especialmente para as tarefas mais complexas. Como disseram recentemente analistas do Bernstein, a China não está se livrando do trabalho, só dos trabalhadores.

Esse poderia ser um dos motivos pelos quais o emprego fabril já atingiu seu pico em muitas economias emergentes, e isso vem acontecendo em uma porcentagem bastante baixa do emprego total e em um estágio anterior do desenvolvimento econômico -- uma tendência que foi apelidada de "desindustrialização prematura".

É preciso esclarecer que este não é um argumento contra a tecnologia em si. Os smartphones dão aos usuários acesso a grande parte do conhecimento do mundo e esses telefones são cada vez mais uma passagem para um emprego no setor de serviços.

Mas ainda não se sabe se esses empregos -- como dirigir para Uber -- serão tão bem pagos ou seguros quanto um emprego em uma linha de produção. Também existe o risco de que esses empregos em serviços se tornem muito mais automatizados -- os carros autônomos são uma ameaça aos motoristas de táxi.

A concorrência por bons empregos em serviços provavelmente será acirrada, o que limitará os salários. Em seu conjunto, é possível que os robôs acabem exacerbando a inequidade em países de baixa renda.

Até mesmo líderes empresariais que deverão lucrar com o aumento da automação e da digitalização se tornaram cada vez mais francos em relação às possíveis consequências negativas. Na Alemanha, tanto o CEO da Deutsche Telekom quanto o da Siemens defenderam recentemente algum tipo de renda básica para os trabalhadores que foram substituídos pela tecnologia.

É claro que é improvável que Trump apoie qualquer coisa que soe como dar dinheiro por não fazer nada. Mesmo assim, ele terá que lidar com as consequências: poucos empregos na indústria voltarão aos EUA e não serão criados muitos mais em outros lugares.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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