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A vida sem dinheiro nos bairros empobrecidos de Detroit

Valerie Vande Panne

(Bloomberg) -- Quando seu carro quebrou, Halima Cassells não tinha US$ 400 para consertá-lo. Mas ela tinha tempo acumulado no banco de horas do bairro onde mora em Detroit trabalhando de babá, e essas horas renderam o conserto.

Em 2012, quando estava grávida, ela não tinha dinheiro para comprar roupas de bebê, um carrinho ou uma cadeirinha para o carro. Mas ela conseguiu organizar uma festa, e seus amigos conseguiram levar as coisas de bebês antigas que tinham.

"Quando as pessoas se juntam para compartilhar, não é uma transação", diz Cassells. "Todos pressupõem certo grau de responsabilidade com os outros. É uma forma diferente de saber que suas necessidades estão sendo atendidas."

Após anos de privações, moradores de Detroit como Cassells recorreram ao que os especialistas chamam de "economia de oferta" para sobreviver. A deles é uma economia alternativa com base em bancos de horas, no compartilhamento de habilidades e em doações --vegetais plantados em casas, o conserto de um teto, chaves extras para um carro compartilhado-- em que os vizinhos dão o que podem e pegam o que precisam.

É uma moeda comunitária que ajuda os pobres de Detroit a sobreviver sem dinheiro. E quem depende dela diz que ela ajudou a fortalecer as comunidades na cidade grande mais pobre dos EUA, onde quase 40% da população vive na pobreza e cerca de 115 está oficialmente desempregada.

Recuperação limitada

A tão falada recuperação da cidade está revigorando apenas 11 de seus 223 quilômetros quadrados. No restante, tudo o que muitas pessoas sentem que têm são as redes comunitárias formadas por elas.

"Esses sistemas e redes criam raízes porque historicamente Detroit foi abandonada", diz Peter Hammer, diretor do Centro de Direitos Civis Damon J. Keith na Faculdade de Direito da Universidade Estadual Wayne. "A negligência e o abandono são transformados em uma fonte de poder e oportunidades."

Erik Howard, cofundador da Young Nation, uma organização de desenvolvimento juvenil do sudoeste de Detroit, concorda. "Quando a cidade não foi capaz de sustentar, sistemas alternativos foram criados", diz ele.

Decadência

No auge da cidade, em 1950, mais de 1,8 milhão de pessoas moravam em Detroit. Hoje há menos de 680 mil. Dezenas de milhares de casas estão vazias, e um programa para demoli-las está sendo investigado pelo governo federal. O transporte público é escasso; na falta dele, bairros inteiros dependem do transporte comunitário compartilhado.

As autoridades municipais apontam para o crescimento do emprego - 15 mil moradores a mais têm emprego do que em 2014, diz Alexis Wiley, chefe de gabinete do prefeito - e para as melhorias na infraestrutura, como a instalação de 65 mil novos postes de luz em toda a cidade.

Contudo, dois anos depois que a cidade saiu da falência, grande parte dela continua sem dinheiro.

Lição

Economias comunitárias de compartilhamento como a de Detroit oferecem uma lição, diz Howard. E as cidades e suas escolas fariam bem em estudar e trabalhar para fortalecê-las, especialmente integrando-as aos serviços municipais.

"E se você pudesse pagar seus impostos municipais com benefícios comunitários? E se os vizinhos que ajudam vizinhos puderem compensar impostos? 'Bom, isso não dá certo', dirão eles", diz ele. "Bom, a economia tradicional também não está funcionando aqui."

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