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Mulheres dos EUA abalaram o populismo de Trump: Bloomberg View

Frank Wilkinson

(Bloomberg) -- A Casa Branca não consegue superar a disparidade entre a modesta multidão presente na posse de Donald Trump na sexta-feira e os protestos massivos que aconteceram nos EUA no dia seguinte.

Mas o mais importante não é que o número de pessoas marchando em todo o país tenha ultrapassado o número dos que celebravam a posse. O que importa, agora e no longo prazo, é como aqueles corpos em protesto desafiaram e neutralizaram as palavras do discurso de posse de Trump.

Milhões de americanos foram às ruas para uma "Marcha das Mulheres" que, no fim das contas, teve menos a ver com a política de gênero do que com um abrangente ato de rebeldia em relação à nova ordem de Trump. Eles se reuniram em Boston, Los Angeles, Nova York, Seattle e Washington D.C., mas também em lugares como Boise, Idaho e Anchorage, no Alaska.

Por ser quem é, Trump provavelmente ficaria irritado com a magnitude dos protestos de qualquer forma: o tamanho é um instrumento simples para uma mente simplista. Mas o estrategista da Casa Branca, Steve Bannon, e os integrantes mais perspicazes da equipe de Trump com certeza perceberam que os protestos destruíram um discurso de posse proferido menos de 24 horas antes.

Em seu discurso afiado como um caco de vidro, Trump atacou o "establishment" que ele havia derrotado. "Durante tempo demais", disse ele, "um pequeno grupo na capital de nosso país colheu as recompensas do governo enquanto o povo arcava com o custo."

"Recompensas do governo" é uma expressão curiosa para um discurso de posse nos EUA, porque "recompensas" soou muito mais como os espólios que vão para o vencedor. Para tornar seu linguajar menos chocante, especialmente em um momento em que pessoas fabulosamente ricas nomeadas por Trump assumem o poder cercadas de dúvidas quanto à sua ética e a seu civismo, Trump insistiu em seu discurso que na verdade foi "o povo" que triunfou.

O que realmente importa não é qual partido controla o governo dos EUA, mas se o governo dos EUA é controlado pelo povo.

O dia 20 de janeiro de 2017 será lembrado como o dia em que o povo voltou a ter controle sobre esse país.

Como inúmeros populistas antes dele, Trump se colocou como o representante, a voz e o desejo "do povo". Como Jan-Werner Müller escreveu em "What Is Populism?":

A alegação de representação exclusiva não é empírica; ela é sempre nitidamente moral. Quando disputam um cargo público, os populistas retratam seus competidores políticos como parte da elite corrupta e imoral; quando governam, eles se recusam a reconhecer a legitimidade da oposição.

A equipe de Trump sente prazer em condenar as elites. Quando George Will, usando uma gravata-borboleta, disse que o discurso de Trump foi o pior da história, essa foi uma vitória para o bannonismo, o fio condutor do trumpismo. Um presidente eleito com 46 por cento dos votos populares, que assumiu o cargo com taxas de aprovação historicamente baixas, precisa do escárnio das elites para dar impulso a si mesmo e polir sua credibilidade populista.

No entanto, o número de pessoas que marcharam contra Trump no sábado parece ter superado dois milhões. Se Trump personifica o povo, quem eram aqueles milhões de corpos que insistiam que ele não os representa? Não havia muitas gravatas-borboleta nas multidões.

Nem Trump nem os organizadores da Marcha das Mulheres poderiam ter imaginado o quanto as palavras populistas do discurso de posse seriam tão devastadoramente refutadas pelo mar de seres humanos do sábado. Sim, trata-se de uma vitória de curto prazo. O governo Trump será o campo de uma batalha longa e violenta. O gongo acabou de soar.

Mas foi importante. Todo mundo em Washington -- do determinado presidente da Câmara de Representantes do Congresso, Paul Ryan, a uma Casa Branca em estado de choque, dos democratas hesitantes emergindo dos escombros aos grupos de interesses liberais em busca de uma âncora ideológica -- teve a chance de ver um povo muito diferente daquele descrito por Trump.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial nem da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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