Em guerra comercial com a China, carne dos EUA viraria ração

Deena Shanker

(Bloomberg) -- As ameaças de campanha de Donald Trump de empreender uma guerra comercial com a China pairam sobre a indústria americana e os executivos precisam determinar como lidar com o possível conflito. Para a indústria americana da carne, a resposta pode estar roncando suavemente perto de sua tigela de comida na cozinha.

Os EUA vendem bilhões de dólares em carne bovina, suína e de frango a países espalhados pelo mundo, uma relação mutuamente benéfica que permite que as empresas encontrem consumidores para cortes de carne que os americanos evitam, como miúdos e orelhas de porco. Se esses mercados fecharem, essas partes de animais tecnicamente comestíveis provavelmente acabarão no café da manhã de seu cachorro, segundo o CEO da Tyson Foods, Tom Hayes.

"Se realmente houvesse uma situação sem mercado de uso primário, usaríamos isso para subprodutos animais", disse Hayes, em entrevista concedida nesta semana à Bloomberg. "Fazemos bastante 'rendering' dos nossos produtos para ração animal." Rendering é o processo de moer pedaços gigantes de alimentos crus e matéria animal, aquecê-los e separá-los em componentes como gorduras líquidas e sólidas para usar em sabão, explosivos -- e ração Fido. Essa é uma forma segura e efetiva de reciclar cerca de 26 milhões de toneladas de material produzido pelos setores de carne, supermercados e restaurantes que, do contrário, iria para o lixo.

"Nós fornecemos a pessoas que produzem ração animal e temos nossas próprias empresas de ração animal", disse Hayes. A respeito de uma guerra comercial com a China, ele disse: "Nossa visão é que a situação não chegará a esse ponto, mas se chegar, temos opções". Ele destacou que a empresa de 82 anos "passou por momentos difíceis antes".

Os cães e gatos dos EUA poderiam estar salivando com a possível chegada das orelhas de porco (se soubessem o que está acontecendo), mas há um problema para a indústria da carne: o lucro. O produto vendido como ingrediente principal da salada de orelhas de porco chinesa alcança um preço maior que o destinado às prateleiras de uma rede de pet shops como a Petco. "O processo de rendering normalmente dá um retorno abaixo de US$ 0,10 a libra-peso (453 gramas)", diz Brett Stuart, diretor-executivo da empresa de análises de mercado Global Agri-Trends. "Há um ano, o valor pago pelas orelhas de porco na China era de US$ 2,80 a libra-peso."

E a questão não se resume às orelhas. A indústria da carne suína dos EUA exportou um total de US$ 791,4 milhões em "variedades de porco" em 2016, sendo que Hong Kong adquiriu US$ 256,7 milhões e a China, US$ 245,2 milhões, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês). A China é a maior importadora mundial de carne suína e, segundo um relatório de outubro de 2016 do USDA, "continua sendo um importante mercado para os exportadores dos EUA". Entre janeiro e agosto de 2015, a China representou 6 por cento do total de exportações de carne suína dos EUA. No mesmo período de 2016, a fatia foi de 12 por cento.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos