Bolsas

Câmbio

Populistas europeus aproveitam 'carnificina' inventada por Trump

Dara Doyle e Alessandro Speciale

(Bloomberg) -- Após décadas derrubando barreiras, a Europa está descobrindo que o livre comércio tem um preço político.

Apesar de todo o foco nas repercussões contra os trabalhadores migrantes, uma pesquisa realizada por dois acadêmicos mostra que as regiões da Europa afetadas por produtos importados mais baratos e pela consequente perda de empregos são terrenos férteis para grupos que repetem o discurso protecionista do presidente dos EUA, Donald Trump. Na Holanda, no leste da França, no norte da Itália e em partes da Áustria, o apoio a partidos populistas que mudaram o panorama político está entre os mais fortes.

"Há uma relação significativa entre o quanto as regiões estão expostas às importações chinesas e o apoio aos partidos radicais de direita", disse Italo Colantone, professor adjunto de Economia da Universidade Bocconi em Milão e um dos autores de um artigo que analisa o impacto da globalização nas eleições europeias. "Há uma impressão de que Wall Street ou as grandes empresas se beneficiam com o livre comércio, mas muita gente sente que sai perdendo."

Em toda a Europa, embora o sentimento em relação à globalização continue positivo de forma geral, a oposição ao livre comércio está crescendo em alguns países, mostrou uma pesquisa da Eurobarometer no ano passado. Isso interfere na política porque os opositores tentam assegurar o crescente apoio a propostas nacionalistas.

Medida de Macron

Na França, os candidatos da disputa presidencial estão tentando verificar o impulso da líder da Frente Nacional de extrema direita Marine Le Pen, que disse em uma entrevista ao "60 minutes" transmitida no domingo que a globalização foi uma "catástrofe para a maioria". O ex-ministro da Economia Emmanuel Macron, que aparece como favorito em algumas pesquisas, disse que introduziria uma "Lei de Compra Europeia" para limitar os contratos públicos a empresas com pelo menos metade de suas operações na Europa.

A medida vem depois da campanha eleitoral dos EUA, onde a candidata democrata derrotada, Hillary Clinton, reagiu a Trump se afastando do Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento, um novo acordo entre os EUA e a Europa que visava a flexibilizar barreiras sem impostos.

Em seu relatório, publicado no início deste ano, Colantone e o coautor Piero Stanig afirmam que o aumento das importações da China, que afetou fabricantes locais e, consequentemente, provocou perdas de empregos está entre os principais fatores. O valor das importações europeias da China mais que triplicou entre 2001 e 2016.

No entanto, por mais que Le Pen e seus pares populistas tentem criar uma imagem de "carnificina europeia" pelo continente, no estilo do que foi evocado por Trump em seu discurso de posse, é improvável que a UE redesenhe o mapa comercial.

A UE é uma "superpotência comercial" e está "em nosso DNA apoiar um comércio mundial mais livre", disse Jyrki Katainen, vice-presidente da Comissão Europeia, em entrevista à Bloomberg. "Nossa intenção é acelerar nossas negociações sobre acordos de investimento."

"Embora talvez vejamos um tom um pouco mais duro com os chineses, a UE foi construída a partir de um compromisso com instituições multilaterais", disse Kevin O'Rourke, professor de História Econômica da Universidade de Oxford. "Ela poderia ser o último bastião do livre comércio."

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos