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Sem retomada dos investimentos, crise brasileira se aprofunda

David Biller

(Bloomberg) -- A crise econômica do Brasil se aprofundou ainda mais no quarto trimestre do ano passado devido ao ceticismo de investidores e consumidores em relação às medidas de austeridade adotadas pelo governo, que marcaram um ano desastroso em termos de corrupção e recessão.

O produto interno bruto encolheu 0,9 por cento nos últimos três meses de 2016, maior declínio em um ano, após uma queda revisada de 0,7 por cento no trimestre anterior, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira. O resultado foi pior que a mediana de estimativas de 46 economistas consultados pela Bloomberg, de declínio de 0,5 por cento, e menor do que 42 dessas estimativas. No ano cheio, a economia brasileira encolheu 3,6 por cento.

Em meio ao maior escândalo de corrupção da história do País, a crise econômica e política do Brasil dizimou os investimentos e o consumo, e o desemprego agora atinge patamares recorde. A recuperação econômica pode continuar distante, embora o presidente Michel Temer esteja recebendo elogios de investidores por seu esforço para melhorar a economia do Brasil e a queda da inflação permita a redução dos juros pelo Banco Central.

"O relatório confirma que há muita ociosidade na economia do Brasil", disse Cristiano Oliveira, economista-chefe do Banco Fibra, por telefone. "O BC tem muito espaço para acelerar os cortes na Selic."

As taxas dos contratos futuros de juros para janeiro de 2019 subiam dois pontos-base, para 9,68 por cento, às 11h32, pelo horário de Brasília. O real registrava valorização de 0,68 por cento, para 3,1162 por dólar.

Minutos após a divulgação dos números do PIB, Temer prometeu levar sua agenda de reformas adiante e ressaltou alguns indicadores econômicos positivos, como a queda da inflação.

Contudo, nos últimos três meses de 2016, os investimentos caíram 1,6 por cento. O total registrado foi de 16,4 por cento do PIB em 2016, contra 18,1 por cento e 19,9 por cento nos dois anos anteriores, segundo o IBGE.

"Não há novas evidências a respeito de onde a atividade econômica sairá", disse André Perfeito, economista-chefe da Gradual Cctvm, por telefone. "Não procede o argumento de que os juros mais baixos, por si só, garantem investimentos."

No total, quatro dos seis setores da economia encolheram no quarto trimestre, o que inclui um declínio de 0,6 por cento do consumo das famílias e a queda de 0,8 por cento dos serviços, pior resultado do setor em mais de um ano, segundo o IBGE.

Os resultados do quarto trimestre são bastante diferentes das previsões iniciais do governo de que a recuperação começaria no fim de 2016. Como os economistas projetam menos de 1 por cento de expansão do PIB neste ano, as autoridades agora apostam em uma agressiva flexibilização quantitativa e em uma série de reformas econômicas e fiscais para iniciar o retorno do Brasil ao crescimento.

O BC indicou no mês passado que deseja ver novos avanços das medidas de ajuste fiscal antes de acelerar o ritmo de cortes dos juros. A próxima grande proposta de Temer -- a reforma do insustentável sistema previdenciário brasileiro -- é alvo de críticas de parlamentares da oposição e de sindicatos e provavelmente enfrentará mais obstáculos no Congresso do que a proposta do teto de gastos, aprovada no ano passado.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou nesta terça-feira que os resultados do quarto trimestre refletem políticas passadas e que os indicadores de vendas mostram que a economia está melhorando. Mas poucos analistas esperam uma recuperação forte.

"Em termos reais, o PIB agora está 9 por cento abaixo do pico prévio à recessão. Esta é, sem dúvida, a pior recessão de que se tem registro", escreveu o economista-chefe para mercados emergentes da Capital Economics, Neil Shearing, em um relatório. "Contudo, desconfiamos que o quarto trimestre deverá marcar também o fim da recessão."

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