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Análise: Crenças arraigadas nos mercados serão abaladas

Dr Mohamed Aly El-Erian

(Bloomberg) -- Crenças arraigadas dificilmente se abalam - especialmente em mercados nos quais essas crenças proporcionaram retorno elevado por muito tempo. Isso pode incentivar a permanência de determinados comportamentos, mesmo diante de evidências que os contradizem. E podem ser necessários muitos dados inconsistentes para que os comportamentos se alterem.

Essa tendência - que os especialistas em finanças comportamentais chamam de "perseverança de crenças," "viés de confirmação" ou "polarização de atitudes" - pode ser um dos motivos pelos quais os mercados confiantemente vêm ignorando uma lista crescente de novidades que, em outra situação, teriam causado maior volatilidade. Só nas últimas duas semanas, a lista incluiu:

* Grandes movimentos bruscos nas expectativas de elevação iminente da taxa básica de juros pelo banco central dos EUA;
* Um discurso do presidente americano, Donald Trump, de tom construtivo, mas com poucos detalhes sobre a política econômica;
* Aumento do risco político na Europa (particularmente as eleições na França); e
* Redução na meta de crescimento da China, acompanhada de um alerta do primeiro-ministro Li Keqiang na sessão de abertura do Congresso Popular Nacional sobre um "acúmulo de riscos, incluindo os relativos a ativos de recebimento duvidoso, calotes em títulos de dívida, sistema bancário paralelo e atividades financeiras pela internet."

As crenças a que me refiro envolvem o tripé de economia, politica e finanças e têm sido tremendamente lucrativas para investidores e traders:

* Embora baixo e insuficientemente inclusivo, o crescimento global permanecerá relativamente estável e previsível, podendo ser maior do que se espera;
* Os bancos centrais ainda têm capacidade e disposição para reprimir a volatilidade financeira; e
* Embora o quadro político esteja tumultuado e insólito, não contaminará adversamente a economia e o mundo das finanças e, caso haja impacto, será favorável aos mercados porque o Partido Republicano agora controla a presidência e tem maioria nas duas casas do Congresso americano.

Embora esses três aspectos sejam fluidos - e, no meu entendimento, bem menos previsíveis --, tudo o que aconteceu até agora não bastou para mudar opiniões de forma abrangente. Assim, a maioria das métricas de volatilidade no mercado permanece baixíssima e muito bem comportada.

Nas próximas semanas, essa calmaria nos mercados pode ser abalada por sinais como:

* Medidas governamentais temidas pelos mercados, como protecionismo nos EUA ou decisões pelo Banco Central Europeu e Banco do Japão de se juntar ao Fed na adoção de uma postura estrategicamente menos branda;

* Menos lucros oriundos da legislação pró-crescimento devido ao estresse entre Trump e os caciques republicanos que controlam o Congresso; e

* Grandes vitórias de partidos contra o establishment nas duas eleições na Europa (Holanda e França).

Aumentando a incerteza, os riscos não apontam em uma só direção. Os mercados responderiam favoravelmente a progressos em termos de detalhamento e implementação das medidas pró-crescimento do governo Trump ? envolvendo reforma tributária, desregulamentação e infraestrutura ? e a comentários das autoridades monetárias da Europa e do Japão que sinalizem acomodação.

Também existem as questões de longo prazo que implicam risco de maior volatilidade. Endogenamente, o regime de baixa volatilidade enfrenta potenciais obstáculos, como uma excessiva valorização cambial que prejudique o crescimento econômico e os lucros das empresas e alimente a retórica protecionista. Exogenamente, os mercados podem ter cada vez mais dificuldades para se proteger dos efeitos adversos cumulativos que o crescimento baixo e insuficientemente inclusivo tem sobre as instituições, a política e a economia.

Nos próximos meses, as três principais crenças do mercado - economia estável, baixa volatilidade financeira e um quadro político que não causa efeitos adversos sobre os dois primeiros aspectos - provavelmente serão desafiadas pelo acúmulo adicional de dados que lhes contradizem, aumentando as chances de uma virada. Se demorar para isso acontecer, aumenta a probabilidade de essas contradições cíclicas virem junto com mudanças seculares e estruturais maiores.

Dito isso, as consequências não precisam ser necessariamente desastrosas para os mercados.

Não se pode ignorar o potencial de perdas em um cenário no qual o baixo crescimento econômico dá lugar a recessões periódicas, a estabilidade financeira artificial dá lugar a volatilidade impactante e a política fica tão caótica que provoca perturbações na economia.

Mas dependendo da resposta das autoridades, também há espaço para ganhos em um cenário no qual o crescimento aumenta e se torna mais inclusivo, a estabilidade financeira fica genuinamente ancorada e a situação política progride e permite melhor governança da economia.

Com os possíveis desfechos tão polarizados, é bom aprender quais indicadores precisam ser acompanhados.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial da Bloomberg LP e seus proprietários.

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