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Análise: Spotify e Universal tocam notas certas do futuro digital

Leila Abboud e Shira Ovide

(Bloomberg) -- Prepare os anjos cantores. Após uma disputa interminável, o maior selo musical do mundo e o maior serviço de streaming do mundo fecharam um novo contrato. O fato de a Universal Music Group, da Vivendi, e o Spotify terem superado a animosidade é um bom presságio para ambos.

O acordo inclui compromissos importantes dos dois lados: a Universal Music aceitou receber uma taxa de royalty menor por cada música do que a recebida no antigo contrato, mas somente se o Spotify atingir certas metas no tocante ao aumento de sua base de assinantes pagantes. Nenhuma das empresas revelou números exatos, mas basta dizer que se o Spotify atrair mais clientes, pagará menos do que a taxa atual de cerca de 55 por cento.

Em contrapartida, o Spotify permitirá, com efeito, que o selo coloque os álbuns novos por trás de um paywall por duas semanas. Isso significa que um álbum novo de Rihanna ou Kanye West poderia ser disponibilizado primeiro apenas para as mais de 50 milhões de pessoas que pagam o Spotify -- e não para as outras dezenas de milhões que utilizam o serviço gratuito sustentado por publicidade. A Universal Music queria muito guardar uma fatia maior de sua música para levar as pessoas para o serviço pago, que custa cerca de US$ 10 por mês.

Os executivos da indústria da música muitas vezes reclamam em privado que o Spotify tem uma mentalidade muito estilo Silicon Valley, que prioriza a expansão da base de usuários gratuitos em vez de convencer as pessoas a assinarem o serviço. A escala variável de taxas de royalty do novo contrato é um mecanismo engenhoso por meio do qual ambos os lados podem realmente conseguir o que querem. O novo contrato pode servir de modelo para os acordos que o Spotify está tentando fechar com os outros dois principais selos musicais, Sony e Warner Music.

Considerando que os termos do contrato não são públicos, é difícil calcular seu efeito sobre os resultados financeiros da Vivendi e do Spotify. Mas tanto o Spotify quanto as empresas da música podem muito bem ganhar com suas concessões.

O Gadfly já escreveu sobre o difícil equilíbrio econômico das empresas de streaming de música, que entregam a vasta maioria de suas receitas para os donos dos catálogos de músicas e dos direitos de publicação das músicas. O Spotify não gera lucro e precisa reduzir os cerca de 81 por cento a 83 por cento de receitas que paga por licenciamento de músicas, marketing e outros custos não operacionais antes de levar uma oferta pública inicial adiante.

No caso da Universal Music, o selo receberá uma fatia menor de um bolo maior sem prejudicar tanto sua receita. O streaming atualmente responde por cerca de 30 por cento de suas receitas e é nesse segmento que está todo o crescimento, porque menos pessoas estão baixando álbuns no iTunes ou comprando CDs.

O acordo entre o Spotify e a Universal é também um momento para comemorar o panorama geral. A indústria da música fez o que poucas empresas de mídia e de entretenimento fizeram até o momento: mudou seu modelo de negócio de forma bem-sucedida das vendas físicas para as vendas digitais. Graças em grande parte à popularidade dos serviços de streaming de música, a receita do setor está crescendo significativamente pela primeira vez desde o fim dos anos 1990. As vendas anuais ainda representam menos da metade do que eram no pico da era do CD, mas há uma luz no fim do túnel.

A receita da indústria da música dos EUA cresceu 11,4 por cento em 2016, segundo números divulgados na semana passada por uma associação do setor. E os serviços de streaming de música por assinatura merecem todo o crédito por entregarem o dobro da receita do ano anterior. O ano passado foi a primeira vez na história em que os serviços de streaming de música geraram a maior parte das receitas da indústria da música dos EUA. Isto é um alívio para os selos, porque as receitas dos CDs vêm encolhendo há anos, assim como os downloads digitais de lojas como o iTunes.

E a mudança dos negócios na indústria da música não ajudou apenas os selos e o Spotify. As vendas de músicas da Apple vinham encolhendo porque as pessoas estavam baixando menos no iTunes, mas agora as receitas com a música cresceram por três trimestres consecutivos graças ao seu serviço de streaming Apple Music. A Apple foi na esteira do Spotify para construir uma opção própria bem-sucedida de música por assinatura.

O Spotify e a Universal Music aparentemente fizeram o impossível. Mostraram que após quase 20 anos de brigas pelo futuro digital do negócio da música finalmente existem mais áreas de acordo do que motivos para guerra. É verdade que os selos musicais, músicos e empresas de tecnologia focadas na música como o Spotify ainda não estão livres dos problemas financeiros. Mas o pragmatismo agora está em voga, o que pode muito bem levar a um futuro financeiro saudável para a música.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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