Análise: Apple engata marcha mais lenta, talvez para sempre

Shira Ovide

(Bloomberg) -- Mesmo se o próximo iPhone for um sucesso, pode parecer uma decepção.

A cotação e os múltiplos da ação da Apple não param de subir neste ano. Os investidores não dão importância ao fato de a empresa estar se transformando em uma soberana altamente lucrativa, mas de crescimento lento. As ações avançaram 27 por cento e superaram a maioria das outras superpoderosas da tecnologia, graças ao otimismo inabalável na retomada das vendas com o lançamento de novas versões do iPhone.

Mas uma coisa é a esperança, outra é a realidade. A taxa de expansão da Apple é anêmica para os padrões da companhia, especialmente em se tratando do iPhone, que gera aproximadamente dois terços da receita.

No trimestre fiscal encerrado em 1º de abril, a receita total aumentou 4,6 por cento em relação a um ano antes, segundo números divulgados pela empresa na terça-feira. É impressionante para uma companhia daquele tamanho, mas nada que lembre o crescimento quase inacreditável do passado. O número de iPhones vendidos recuou 0,8 por cento. Isso não é bom.

Acredita-se que o que quer aconteça com o negócio da Apple nos próximos meses será um prelúdio para a aceleração das vendas graças à renovação dramática da linha em comemoração aos 10 anos do iPhone. Porém, as esperanças de um salto nas vendas a partir do final de 2017 podem gorar por vários motivos. As pessoas estão demorando mais para trocar de smartphone. Mais pessoas que compram iPhones nos EUA agora mostram preferência por modelos mais antigos e baratos.

A aposta é que a China será a maior fonte de crescimento das vendas de iPhones, mas nada garante um salto nas vendas por lá.

Também há risco de exagero nas projeções de expansão das vendas do iPhone. Pela primeira vez em anos, a ação da Apple não parece uma pechincha. A razão entre o preço da ação e o lucro projetado é a maior desde o final de 2014 e início de 2015.

Naquele ano fiscal de 2015, o primeiro ano completo com vendas do iPhone 6, o número de aparelhos vendidos aumentou em 62 milhões, ou 37 por cento. Na média, analistas esperam acréscimo de 19 milhões de unidades, ou 9 por cento, no ano fiscal que termina em setembro de 2018, segundo análise das estimativas de Wall Street realizada pelo UBS.

Contudo, a Apple não precisa convencer muitos fãs a trocar por modelos mais novos. Circulam pelo mundo entre 500 milhões e 600 milhões de iPhones, pelas estimativas do Mizuho. Se os donos de apenas 4 por cento desses aparelhos adquirirem um novo, isso se traduzirá em pelo menos 20 milhões de novos smartphones vendidos. A companhia também tem conseguido subir o preço do iPhone, o que pode ajudar o lucro mesmo se ficar mais difícil convencer os consumidores a pagar por um novo modelo.

O melhor é o investidor se acostumar a um futuro no qual o crescimento da Apple é menos turbinado. O avanço do iPhone perdeu velocidade e não está claro se os carros que rodam sem motorista, o serviço de streaming de vídeo ou qualquer outro poderão substituir esse crescimento.

Ainda assim, a Apple gera mais lucro do que qualquer outra empresa e nada em dinheiro. Na terça-feira, a companhia avisou que pretende distribuir US$ 300 bilhões em dinheiro aos acionistas até o fim de março de 2019. Isso é mais do que bom. Mas que ninguém permita que a esperança em um retorno mítico aos velhos tempos ofusque a realidade de uma Apple em grande forma.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião da Bloomberg LP e seus proprietários.

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