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Franceses combatem gelo com fogo para defender vinhedos

Guy Collins, Rudy Ruitenberg e Robert Williams

(Bloomberg) -- Na madrugada de 27 de abril, quando as temperaturas em Bordeaux caíram abaixo do zero, os vinhedos normalmente escuros e desertos voltaram à vida de repente. Exércitos de trabalhadores corriam para os campos, fogueiras crepitavam e ventiladores gigantes e pás de helicópteros agitavam o ar gelado.

O inimigo invasor: uma geada que ameaçava uma das safras mais valiosas do mundo, as uvas que produzem garrafas de Château Pétrus, de US$ 4.000, e de outros vinhos apreciados.

O frio causou pelo menos 1 bilhão de euros (US$ 1,1 bilhão) em estragos que, segundo os vinicultores franceses, são o maior desastre em 25 anos. Trata-se do mais recente golpe para o setor francês, que exportou 8,25 bilhões de euros em vinho em 2016, mas perdeu participação global nos últimos anos. Enquanto a geada devastava vinhedos de Bordeaux a Borgonha e Champagne, o destino dos vinicultores dependia de recursos, planejamento, localização e, não menos importante, da sorte.

Um dos trabalhadores que tremiam de frio em Bordeaux naquela noite era Inès de Bailliencourt, da fazenda de Château Gazin em Pomerol, que rapidamente percebeu que ela enfrentava a maior ameaça de uma geada a suas vinhas desde a grande geada de 1991, que destruiu 90 por cento do vinhedo. Dessa vez, ela disse que a fazenda estava mais bem preparada para se defender do frio da madrugada, e foram acendidas centenas de velas gigantes que produzem calor para aquecer as vinhas.

"Tivemos sorte", disse De Bailliencourt, cuja família é dona de Gazin há um século e vende o vinho de lá por entre US$ 50 e US$ 100 a garrafa. "Acendemos fogueiras em todos os lugares. Foi a primeira vez que fizemos isso."

Prejuízos

Alguns châteaux de Bordeaux afirmam que perderam quase tudo. Champagne e a Borgonha sofreram menos, mas este é o segundo ano consecutivo de fortes geadas nessas regiões.

A geada chegou a afetar 60 por cento das regiões produtoras de vinho de Bordeaux e reduzirá o volume da safra de 2017 em até 40 por cento, segundo a federação de vinhos de Bordeaux FGVB. Isto representa pelo menos 1 bilhão de euros em produção perdida só dessa região, sobre uma receita anual normal de 3,5 bilhões a 4 bilhões de euros, informou a organização. Em Chablis, Borgonha, 1.500 hectares de 5.300 hectares foram afetados, segundo o conselho regional do vinho.

Champagne já havia sido afetada por uma queda de 14 por cento nas exportações para o Reino Unido no ano passado. As vendas nesse país, o maior mercado externo da região em termos de volume, sofreram com a forte queda da libra esterlina desde a vitória do Brexit, em junho.

Na Borgonha, os produtores estavam bem organizados após uma forte geada no ano passado. Desta vez, quando as projeções previram mais uma geada, eles organizaram uma rede de mensagens de texto e levaram fardos de feno a pontos estratégicos. Em 29 de abril, Alex Gambal, agricultor e comerciante de Beaune, acordou às 5 horas.. O céu estava limpo, e as temperaturas, baixíssimas. Às 6h45, disse ele, fogueiras criavam uma nuvem violeta pelos vinhedos.

"Todos foram chamados para ajudar", disse Gambal. "Alguns dos mais velhos compararam a geada com as de 1957 e 1981. Mas muitos deles disseram que nunca tinham visto nada semelhante."

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