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Refugiado em Londres renova mercado de transferência de dinheiro

Edward Robinson

(Bloomberg) -- Refugiado, economista, delator, empreendedor - Ismail Ahmed viveu vários papéis em sua odisseia da Somália devastada pela guerra até a fronteira da tecnologia financeira de Londres.

Mas um evento se destaca: em fevereiro de 2010, ele utilizou um pagamento de US$ 200.000 das Nações Unidas para fundar a empresa de transferência on-line de dinheiro WorldRemit. Desde então, a empresa reuniu mais de US$ 145 milhões e hoje ela transfere dinheiro vivo para 142 países.

Nesta semana, a WorldRemit planeja conectar seu serviço a Android Pay, a carteira digital propriedade do Google, a unidade da Alphabet. Isso facilitará que seus 2,4 milhões de clientes transfiram dinheiro só com alguns toques e aproximará Ahmed a se transformar em uma força modernizadora pela forma com que US$ 444 bilhões em remessas são enviados, por ano, a economias em desenvolvimento.

"O que estamos observando é uma convergência de pagamentos, aplicativos de mensagens, telefonia e remessas", diz Ahmed, 57, em um escritório agitado à sombra da Abadia de Westminster em Londres. "Nós queremos estar na passagem do informal para o formal, do dinheiro vivo para a não utilização de dinheiro em espécie."

Décadas de experiência

Ahmed, de sorriso rápido e transbordado de planos, se comporta com a firmeza de um homem que lutou muito para chegar a este momento. Ele e seus mais de 300 funcionários encabeçam uma iniciativa para transformar um setor que quase não mudou com o passar das décadas. As pessoas ainda fazem fila nas agências de Western Union para mandar fundos a parentes distantes, pagam comissões altas para que os bancos façam isso ou confiam o dinheiro que elas adquiriram com muito esforço a redes do mercado negro. Mesmo assim, o dinheiro demora horas ou até mesmo dias em chegar.

Ahmed cresceu em Somalilândia, no norte da Somália, e entrou no negócio de transferir dinheiro muito antes da chegada do celular. Na década de 1980, seu irmão e seus primos se uniram a milhares de outros homens que trabalhavam nos estados petrolíferos do Golfo Pérsico. Eles entregavam seus salários a agentes de transferência de dinheiro, que compravam materiais de construção para exportar para Hargeisa, a cidade natal de Ahmed. Após a venda dos bens, os agentes distribuíam o arrecadado entre a família dele. Demorava três meses, mas funcionava.

Então, em 1991, a guerra civil convulsionou a Somália. Aviões bombardearam Hargeisa, e Ahmed e a família fugiram para o vizinho Djibuti. Ele chegou ao Reino Unido, onde estudou economia na University of London. Ahmed tinha dois ou três empregos ao mesmo tempo. Ele voltava para casa tão cansado após colher morangos nos subúrbios de Londres que ia para a cama dormir vestido. Ele visitava agentes de transferência de dinheiro na cidade a cada duas semanas.

'Fato da vida'

Após se doutorar, Ahmed pesquisou sobre o negócio das remessas em Somalilândia. Em 2005, ele arrumou o emprego sonhado com a ONU em Nairóbi, ajudando empresas de transferência de dinheiro a cumprir normas de financiamento do contraterrorismo promulgadas após os atentados de 11 de setembro. Pouco depois, diz ele, descobriu que um funcionário sênior outorgava contratos de consultoria a uma empresa da qual ele era sócio. Então Ahmed virou delator.

A ONU não reagiu às acusações dele, mas o comitê de ética da organização decidiu que ele tinha sido vítima de represálias e ordenou o pagamento de uma liquidação, segundo registros do caso. Ahmed soube exatamente o que fazer com o dinheiro.

"A migração é um fato da vida", diz ele. "E nós não acreditamos que isso vá mudar, com ou sem Brexit, com ou sem Trump."

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