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Análise: Grande momento de Macron é da Europa também

Ferdinando Giugliano

(Bloomberg) -- Há um ano e meio, com dez ou mais colegas jornalistas, participei de um almoço na residência do embaixador francês em Londres. O orador convidado era Emmanuel Macron, à época ministro da Economia da França, que havia atravessado o Canal da Mancha para promover seu país como destino de investimento para bancos e empresas de alta tecnologia.

O que mais me impressionou no homem que no domingo passado se tornou o presidente mais jovem da história da França não foi tanto sua ambição sem limites, nem sua diligente atenção aos detalhes. Foi sua franca eurofilia, que um ano depois se tornaria uma das características definidoras de sua campanha presidencial.

Em um momento de ressentimento crescente em relação a Bruxelas, Macron aparece como um viajante do tempo da era pré-crise. Aos 39 anos, ele é o maior símbolo da "geração Erasmus" -- uma alusão ao principal programa de intercâmbio universitário da União Europeia, que permite que os estudantes passem um ano em outro país da UE. Agora na casa dos 30 ou 40 anos, estes jovens profissionais com boa educação viram suas carreiras e suas vidas sociais prosperarem graças às fronteiras abertas. Muitos deles se apegaram aos sonhos federalistas na esperança de que um dia a UE se transforme em uma espécie de Estados Unidos da Europa.

Agora que ocupa o cargo mais elevado de seu país, Macron tem a oportunidade de transformar o sonho dessa geração em realidade. Ele enfrenta dois obstáculos principais: o primeiro é convencer a Alemanha a aceitar as consequências de uma integração maior da zona do euro. O segundo é conter a maré de euroceticismo, que está ganhando campo entre os mesmos jovens que costumavam ver a UE com entusiasmo. São grandes desafios.

Contudo, se tem alguém que pode superá-los, é Macron. Ele enxerga a zona do euro como uma união fiscal integrada, com um ministro da Economia que gerencia um orçamento comum e que deve prestar contas ao Parlamento europeu. Essa ideia -- que muitos economistas concordam que é necessária para a sobrevivência do bloco monetário -- tem enfrentado oposição feroz na Alemanha. Berlim teme que os estados-membros mais frágeis usem o dinheiro dos contribuintes alemães para financiar gastos maiores em vez de tentarem melhorar a competitividade. A chanceler alemã, Angela Merkel, parabenizou Macron por sua vitória, mas também deixou claro que não tem a intenção de relaxar as rígidas regras fiscais da zona do euro.

Felizmente, Macron entende que uma união de transferência, na qual os estados mais fortes apoiam os mais fracos, precisa ser baseada em um compromisso. "Você não pode dizer eu sou a favor de uma Europa forte, mas que nem morto aceito uma união de transferência... ou reformar o meu país", disse ele naquele almoço em Londres. A razoabilidade de Macron contrasta fortemente com a lógica de outros líderes europeus que prometeram reformar a UE. Matteo Renzi, o ex-primeiro ministro da Itália, resistiu a uma supervisão maior de Bruxelas sobre os orçamentos nacionais, ao mesmo tempo em que pedia uma "flexibilidade" orçamentária maior para ampliar os gastos correntes -- o que dificilmente ajudaria a convencer os alemães.

O outro teste que o novo presidente da França enfrentará será convencer a juventude europeia de que vale a pena perseguir o sonho da geração Erasmus. Macron ganhou por uma margem de 2 para 1 no segundo turno da eleição presidencial, conseguindo uma maioria em cada grupo etário. Contudo, Marine Le Pen, sua adversária eurocética, se saiu muito melhor entre os eleitores mais jovens e de meia-idade. Um fator decisivo parece ser a frustração entre os eleitores jovens em relação à falta de empregos bem remunerados. A mesma raiva tem impulsionado outros partidos populistas pela Europa, a começar pelo Movimento Cinco Estrelas na Itália, onde o desemprego entre os jovens é de mais de 35 por cento.

Macron pode ter chegado no momento certo. A economia da zona do euro desfruta de uma leve recuperação, que poderia ganhar força agora que os investidores conseguirão deixar de se preocupar com o risco de ter um presidente eurocético no Palácio do Eliseu. Com o fortalecimento do crescimento econômico, o desemprego entre os jovens tenderá a diminuir, o que por sua vez deverá aumentar o apoio à UE.

É claro que existem muitos motivos para se preocupar em relação a se Macron poderá cumprir até mesmo uma pequena parte de seu ambicioso programa. Ele pode não conseguir conquistar uma maioria nas eleições legislativas do mês que vem, o que dificultaria seu esforço de realizar reformas internas. A Alemanha poderá recusar-se obstinadamente a participar. Uma nova crise econômica em um país como a Itália poderia parar repentinamente a recuperação.

Contudo, se existe um momento para ter esperanças em relação à zona do euro, esse momento é agora. A geração Erasmus parece ter atingido a maioridade.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

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