Reforma e inflação renovam otimismo do mercado

Josué Leonel

(Bloomberg) -- A rejeição pela Câmara da maioria dos destaques que tentaram mudar a reforma da Previdência, combinada com a inflação abaixo da meta pela 1ª vez em 10 anos, renovou um otimismo que anda meio em banho-maria no mercado. Nesta quarta-feira, o dólar chegou a cair para R$ 3,15, o risco Brasil recuou ao menor nível desde janeiro de 2015 e as chances de um corte maior dos juros no próximo Copom aumentaram. O entusiasmo do investidor, porém, ainda é contido. Um dos motivos é a incerteza para a eleição de 2018, ainda distante mas cujas pesquisas já alimentam dúvidas sobre se o futuro presidente manterá o ajuste fiscal que o atual governo ainda nem começou, de fato, a promover.

O economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs em Nova York, avalia que o dólar poderá cair a R$ 3,00 ou mesmo abaixo deste nível se o Congresso aprovar a reforma da Previdência e o cenário externo continuar benigno. Contudo, ele ainda mantém uma projeção um pouco mais cautelosa para a moeda, a R$ 3,20 no final do ano.

Um dos motivos persistentes de cautela para o mercado é a falta de um quadro mais claro sobre a eleição do próximo ano, diz o economista do Goldman. Esta dúvida é realçada pelo fato de as reformas do governo Temer serem um avanço ainda incompleto e o país seguir com déficit elevado."Na virada do ano, poderemos entrar num período de grande incerteza. O investidor estará focado na eleição, querendo saber se os candidatos que lideram as pesquisas são comprometidos com o ajuste fiscal", diz Ramos.

Além do avanço da reforma da Previdência na Câmara, o humor do investidor com o Brasil é favorecido pela alta das commodities no exterior e também pelo indicador oficial da inflação, que caiu para 4,08% em 12 meses em abril, abaixo do centro da meta e no menor nível desde julho de 2007. O mercado de juros futuros aumentou a aposta na possibilidade de o ritmo de corte da Selic passar de 1 ponto percentual para 1,25 pp no Copom de 31 de maio.

A inflação vem "sistematicamente" surpreendendo para baixo, diz o economista Rodrigo Melo, da Icatu Vanguarda. Após desacelerar para 0,14% na variação mensal de abril, o IPCA deve ter alta maior em maio, mas ainda assim o índice em 12 meses continuará caindo. Para o ano, Melo prevê inflação de 3,6%. Ele ainda prevê, oficialmente, um corte de 1 ponto na Selic em maio, mas com "viés de baixa". Há uma chance "bastante relevante" de o corte ser acelerado para 1,25 pp se não houver nenhuma surpresa negativa das reformas em Brasília e se os números de inflação seguirem baixos.

O esforço de reformas e a queda da inflação e dos juros embalam o otimismo, mas o Brasil não é o único país a atrair o olhar dos investidores. O déficit em conta corrente - a métrica mais ampla do comércio de bens e serviços - caiu no Brasil mas também na África do Sul, Turquia, Índia e Indonésia. Esses países foram chamados de "os cinco frágeis" em 2013, quando suas moedas sofreram fortes quedas. "Eles não são mais tão frágeis", disse Yacov Arnopolin, gestor de carteiras da Pimco, em entrevista à Bloomberg TV.

Ramos, do Goldman, faz um reparo à melhora dos fundamentos brasileiros. Ele observa que o BC ganhou grande credibilidade ao trazer a inflação para a meta, mas a melhora, assim como a redução do déficit em conta corrente, foi até pequena se levado em conta o tamanho da recessão que o país viveu nos dois últimos anos. "Com uma recessão de proporção histórica, se fosse um país normal o Brasil estaria com deflação, e não uma inflação de 4%."

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