Bolsas

Câmbio

Vinícolas chinesas viram Disney para competir com franceses

Mark Ellwood

(Bloomberg) -- No Château Changyu Reina, torres de tijolos cor de mel cercam amplos pátios de paralelepípedos e os vastos salões com vigas de madeira parecem preparados para um iminente banquete medieval. À primeira vista, o castelo e a vinícola de estilo italiano parecem ter sido construídos há centenas de anos, nas colinas da Toscana, na Itália.

Spoiler: não foram.

O château é apenas uma parte de um ambicioso complexo de 600 milhões de yuans (US$ 86,9 milhões) concluído quatro anos atrás nos arredores da cidade de Xi'an, na província de Shaanxi, na região central da China. Trata-se de uma prodigiosa operação de produção de vinhos alimentada por mais de 800 hectares de vinhas. Atualmente, produz 5.000 garrafas por ano, a maior parte merlot -- e a meta é expandir esse volume drasticamente. As adegas do Château Changyu Reina têm espaço para até 150.000 barris de carvalho.

Um país encantado pelo vinho

Essa imitação de castelo não é única. Faz parte de uma rede de castelos construídos por todo o país, da província de Ningxia até Pequim, pela vinícola mais antiga da China, a Changyu. Essas grandes construções, cada uma inspirada em um país europeu produtor de vinho, são um sinal concreto dos planos ambiciosos da empresa para o vinho chinês. Segundo a Organização Internacional da Vinha e do Vinho, a China é a segunda maior produtora de vinho por área plantada, atrás apenas da França, com uma área ocupada por vinhas quase do tamanho de Porto Rico.

O desafio enfrentado pelas vinícolas chinesas, contudo, não é a quantidade. É melhorar a qualidade do que suas terras são capazes de produzir, e é por isso que a Changyu recorreu à ajuda de um novo e experiente parceiro. Augusto Reina, de 77 anos, não apenas dá nome ao castelo de Shaanxi; ele também comanda a Illva Saronno Holding Spa, vinícola italiana mais conhecida mundialmente como a produtora do licor Disaronno. Reina levou sua experiência para ajudar essa indústria nascente da China a produzir vintages que até mesmo o maior dos esnobes se dignaria a provar. Em troca, a Changyu batizou um castelo em sua homenagem e até cunhou uma escultura de bronze do italiano sentado em um banco no vinhedo -- levantando uma taça.

Há qualidade presente?

Sentado em um hotel perto desse castelo (e da escultura), Reina antecipa o que você está pensando. "Devo confessar que quando viemos à China, há sete ou oito anos, tive dor de estômago por causa da qualidade do vinho. Não era muito bom", explica, por meio de um tradutor. Mas o empresário viu potencial no produto e no mercado; em 2013, a China já havia se tornado a maior consumidora mundial de vinho tinto e continuou crescendo. Reina negociou com a Changyu por mais de dois anos e meio. "Foram negociações cheias de exigências e desafios. Não acho que esse tipo de coisa seria possível para uma empresa americana ou francesa, porque elas têm uma cultura de negócio muito diferente", continua, diplomaticamente.

Turismo também?

Será que as tentativas da Changyu regadas com tanto dinheiro e orientadas por Reina realmente poderão criar uma nova atração turística em forma de vinícola? "Esta definitivamente é uma das marcas mais reconhecidas entre as grandes, juntamente com a Great Wall e a Dynasty. Portanto, ela tem um reconhecimento de marca instantâneo para muitos consumidores chineses", explica Edward Ragg, da Dragon Phoenix Wine Consulting, em Pequim, por e-mail. Ele é cauteloso em relação ao impacto dos italianos sobre o conteúdo das garrafas. Spiro Malandrakis, analista da Euromonitor International, mostra mais otimismo, traçando paralelos com a crescente indústria britânica de vinhos espumantes, impulsionada pela mudança climática e por algumas astutas degustações cegas nas quais superou o champanhe. "Considerando o montante de dinheiro que está sendo investido, e de pessoas envolvidas, em breve veremos vinhos espumantes premiados da Inglaterra e não me surpreenderia se visse vinhos tintos superpremium da China também", disse à Bloomberg.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos