Cicatrizes do Brasil continuam mesmo com melhora da inflação

David Biller

(Bloomberg) -- Passou muito tempo desde a época da hiperinflação no Brasil, quando os funcionários dos supermercados patrulhavam os corredores com máquinas etiquetadoras para marcar os preços mais de uma vez por dia. Mas os brasileiros meio que não conseguem esquecer. Existe uma espécie de trauma coletivo e houve apenas uma -- breve -- ocasião nos últimos 20 anos em que mais pessoas esperavam queda da inflação em vez de aumento.

Isso pode ajudar a explicar por que, após o pico de inflação mais recente provocado pelo cancelamento dos controles do governo e pelos choques dos preços dos alimentos, mais da metade dos brasileiros ainda afirma que a inflação aumentará no futuro. É como se ignorassem o fato de que, após atingir dois dígitos, o índice de inflação caiu em mais da metade em pouco mais de um ano. (Ou estão confundindo deflação, que é quando os preços caem, com desinflação, que é quando os preços sobem menos).

No entanto, nesta quarta-feira, o índice de inflação do Brasil ficou abaixo da meta do governo pela primeira vez em quase sete anos. A queda está permitindo que o Banco Central reduza agressivamente as taxas de juros. Além disso, o Brasil de repente ostenta a menor inflação entre as quatro maiores economias da América Latina.

Alguns veem o dado como motivo de celebração; outros lamentam, afirmando que se trata de um subproduto involuntário dos dois anos de recessão, a mais profunda já registrada, que a maior economia da região ainda não deixou para trás. Embora seja difícil para os brasileiros se alegrarem com um índice de desemprego de 13,7 por cento que ainda está subindo, ninguém quer que a inflação volte a ganhar corpo e o fato de ela ter atingido a meta representa um passo em direção a uma maior estabilidade econômica.

O último reduto da inflação são os serviços, que incluem de tudo, desde planos de saúde e cabeleireiro até aparelhos dentários e cera de depilação -- coisas que milhões de brasileiros que passaram à classe média têm relutado em deixar de pagar mesmo durante a recessão. Com o desemprego ainda em ascensão, o setor de serviços finalmente será atingido e terminará 2017 com a menor inflação em quase 17 anos, segundo Márcio Milan, economista da Tendências Consultoria Integrada.

E assim a inflação geral terminará o ano quase meio ponto percentual abaixo da meta, segundo economistas consultados pelo BC. Isso tem estimulado os apelos para que o governo aproveite a oportunidade de reduzir a meta de inflação pela primeira vez em 14 anos. O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse a jornalistas nesta semana que até que se reúna no mês que vem para estabelecer a meta, o governo vai "observar tudo com muito cuidado para tomar a melhor decisão possível".

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