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Análise: Maior problema de produtividade está na China

Michael Schuman

(Bloomberg) -- Muita gente presume que a China tomará o lugar dos EUA como economia mais indispensável do mundo. No entanto, um fator pode limitar a marcha aparentemente incansável do país e lançar dúvidas sobre a perspectiva de a China se tornar uma economia avançada: a produtividade vacilante.

A China de fato progride a olhos vistos em termos de patrimônio, tecnologia e conhecimento. Mas nada na economia é inevitável. Com a alta dos custos e o encolhimento da mão de obra devido a décadas de política de filho único, a China precisará extrair muito mais de cada trabalhador para continuar crescendo. Caso contrário, poderá sucumbir à trajetória de lentidão que ameaça seu futuro e também o futuro de toda a economia global.

Apesar da reputação de autoritarismo eficiente, o país não é imune à tendência global de diminuição dos ganhos de produtividade. Usando estimativas ajustadas de crescimento econômico, o instituto Conference Board calcula que a produtividade dos trabalhadores chineses avançou 3,7 por cento em 2015, desabando em relação à média anual de 8,1 por cento apurada entre 2007 e 2013.

Mesmo reduzido, esse ritmo é muito maior do que sonham as autoridades em outras partes do mundo. A produtividade aumentou apenas 0,7 por cento nos EUA e 0,6 por cento na zona do euro em 2015. Porém, os ganhos menores na China são problemáticos porque a diferença é grande. Os trabalhadores chineses são muito pouco produtivos quando comparados aos americanos. Pelos cálculos do Conference Board, em 2015, cada trabalhador empregado na China gerava somente 19 por cento do PIB gerado por um americano. Os chineses não são muito melhores que os indianos, com uma parcela de 13 por cento.

Como outras nações asiáticas, a China sofre as consequências do passado bem sucedido. Esses países conseguiram crescer rapidamente ao transferir camponeses pobres para a indústria e inserindo-os na cadeia global de suprimentos. Isso desencadeou enormes ganhos de produtividade, quando gente que trabalhava com a terra começou a fabricar de ursos de pelúcia a iPhones. Ou seja, a China turbinou seu desenvolvimento ao transferir mão de obra e capital subutilizados para uma moderna economia capitalista. Mas, com o tempo, o resultado de cada investida diminui.

Recursos financeiros continuam sendo desperdiçados em empreendimentos ineficientes, por vezes estatais, em setores inchados ? chegando às companhias "zumbis" de siderurgia, carvão e cimento. Assim, os recursos são tirados de empresas mais produtivas. Há subsídios generosos para setores específicos, como o de veículos elétricos, e dinheiro fácil para startups. Deste modo, o governo interfere nos mercados e não permite que as companhias verdadeiramente produtivas liderem.

As consequências para a China podem ser graves. Economistas do Rabobank alertam que a produtividade lenta pode causar a desaceleração do crescimento quando a renda atingir nível substancial, mas não elevado. E como as contribuições da China ao crescimento global são tão grandes, sua desaceleração prejudicaria o mundo todo.

Para evitar esse desfecho, o Rabobank recomenda políticas de aumento da produtividade, como fortalecer o capital humano por meio da educação e melhorar o ambiente regulatório para estimular a inovação. O governo precisa permitir que as forças do mercado realizem a alocação de dinheiro e talento para as empresas e setores mais competitivos e produtivos.

Para os EUA, há até um lado bom nisso. A menos que a China consiga ficar mais produtiva, sua vantagem em relação às economias mais avançadas vai diminuir. Pelos cálculos da Boston Consulting Group, contabilizando a produtividade superior do trabalhador americano, o custo de manufatura na China e nos EUA costuma ser o mesmo. Os fracassos da China podem tornar os problemas de produtividade do Ocidente mais fáceis de suportar.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial, da Bloomberg LP e seus proprietários.

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