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Fofocas em Bruxelas podem decidir acordo sobre Brexit

Ian Wishart e Viktoria Dendrinou

(Bloomberg) -- Perto da Comissão Europeia em Bruxelas, o restaurante Dal Padrino fervilha ao som das conversas de políticos e jornalistas que almoçam e comentam as últimas intrigas.

Do Brexit à iminente visita de Donald Trump à cidade que ele descreveu como "buraco do inferno", não faltam alvos. Com dezenas de milhares de diplomatas, autoridades e jornalistas de cada um dos 28 países-membros da União Europeia e do restante do mundo, Bruxelas não guarda segredos por muito tempo, fato que o Reino Unido já está começando a aceitar.

"Muitas negociações são informais e ocorrem fora da sala de negociação", disse Alexander Stubb, ex-primeiro-ministro da Finlândia que morou nove anos na capital da Bélgica enquanto trabalhava como funcionário público e legislador, em entrevista por telefone. "Um dos segredos para ser um ator de peso em Bruxelas é ter uma rede de contatos ampla."

As negociações do Brexit ainda nem começaram, mas a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, já começou a sofrer com a tagarelice da cidade. Ela culpou a "fofoca de Bruxelas" pelos vazamentos de seu jantar supostamente confidencial com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, e o chefe da UE para o Brexit, Michel Barnier, no mês passado em Londres.

Fofoca

Como nas cidades americanas que sugiram em torno de um único empregador, os bares, lojas e restaurantes do bairro da UE em Bruxelas só têm um motivo para existir. A cidade tem 5.400 diplomatas, a maior quantidade no mundo, segundo um estudo de 2016 da prefeitura de Bruxelas. Acrescente 20.000 lobistas com um orçamento anual de 1,5 bilhão de euros, 40.000 funcionários da UE e quase 1.000 jornalistas permanentes de mais de 30 países e você terá um ambiente fértil para a difusão de fofocas.

Desde que o Reino Unido se uniu à UE em 1973, os tabloides caricaturam Bruxelas como uma cidade monótona cheia de burocratas que só gostam de redigir resmas de legislação técnica sobre a curvatura das bananas ou a potência das torradeiras. Isto ajudou a reforçar a imagem da cidade como um centro administrativo entediante sem muita vivacidade.

Contudo, atrás das fachadas insípidas das instituições da UE há uma cidade tagarela, onde pessoas consolidam contatos profissionais depois de se encontrarem por acaso na rua ou na academia. É uma cidade onde relacionamentos profissionais e políticas são forjados em longos almoços, coquetéis noturnos ou jantares em um dos 26 restaurantes com estrelas Michelin da cidade.

Abismo cultural

A rixa entre o Reino Unido e Bruxelas ressalta os obstáculos que devem ser superados para começar as negociações e o abismo que separa as duas culturas políticas. A imprensa britânica especula sobre a vida social dos funcionários da UE, com foco particular no consumo de bebidas alcoólicas, embora a diplomacia de coquetel tenha se tornado uma característica comum do clima político de Bruxelas.

Os britânicos têm a revista da imprensa - um extravagante espetáculo anual de comédia e música onde políticos, porta-vozes e jornalistas se reúnem para zombar da Europa e de si mesmos. Para quem vem do norte da Europa, às vezes acordos são fechados até mesmo sem roupa.

"Nós fizemos um pouco de diplomacia na sauna", disse Stubb, o ex-líder da Finlândia. "Costumávamos dizer brincando que não deixávamos as pessoas saírem até conseguirmos o resultado que queríamos."

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