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Deserto da Terra Média vira campo de batalha pela água

Matthew Brockett e Tracy Withers

(Bloomberg) -- Na acidentada região central da Ilha Sul da Nova Zelândia, o deserto elevado no qual os homens da Terra Média lutaram pela última vez nos filmes da saga "Senhor dos Anéis" se transformou mais uma vez em campo de batalha.

Ambientalistas e fazendeiros estão brigando pela Bacia Mackenzie, uma área conhecida por suas pastagens avermelhadas e lagos azuis cristalinos -- e agora por enormes sistemas de irrigação que estão espalhando círculos de pasto verde-esmeralda por um terreno que parece de Marte.

"Isto é similar ao enverdecimento dos desertos de Nevada ou da Califórnia", disse Annabeth Cohen, cientista especialista em água potável do grupo ambientalista Forest and Bird. "Essa área é única e conhecida mundialmente por seus cenários incríveis e lagos glaciais e abriga mais de 60 espécies nativas que não podem ser encontradas em nenhum outro lugar da Terra. Irrigar um lugar como a Bacia Mackenzie é uma atitude irresponsável."

Os neozelandeses estão começando a perceber. A mudança do ambiente de Mackenzie é mais uma demonstração das consequências da produção láctea intensa que estão irritando os eleitores quatro meses antes das eleições gerais. Rios antes intocados foram contaminados por efluentes agrícolas em todo o país.

As operadoras de turismo afirmam que essa imagem contrasta com a marca de "100% puro" usada pelo governo da Nova Zelândia mundialmente no marketing junto a fotos de paisagens "limpas e verdes". A campanha ajudou a atrair 3,5 milhões de visitantes em 2016, quando o turismo superou os produtos lácteos como maior fonte de divisas estrangeiras do país.

"Há cinco anos, eu teria dito que eram apenas alguns ambientalistas preocupados com a qualidade da água, mas agora isto realmente está se tornando um dos maiores problemas", disse Shamubeel Eaqub, economista e escritor independente. "Estamos errando."

Limites ambientais

Os motores de crescimento econômico do país se baseiam em grande parte na exploração dos recursos naturais, que estão atingindo seus limites ambientais, informou a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em relatório de março. O grupo com sede em Paris ressaltou que os níveis de nitrogênio aumentaram mais na Nova Zelândia do que em qualquer outro país desenvolvido entre 2000 e 2010 e afirmou que a intensificação da produção láctea foi um dos principais fatores para essa transformação.

O motivo é que uma vaca leiteira normalmente elimina 25 litros de urina rica em nitrogênio por dia, segundo a associação do setor Dairy New Zealand. Essa urina se aloja no lençol freático e termina em rios e lagos, alimentando algas tóxicas. Além disso, ao chegarem nos rios, os efluentes do gado elevam a contagem de bactérias a níveis perigosos. O grupo de defesa dos direitos dos animais SAFE afirma que as 6,6 milhões de vacas do país produzem a mesma quantidade de fezes que 100 milhões de pessoas. A população da Nova Zelândia é de 4,7 milhões.

As autoridades locais estão monitorando a qualidade da água, incluindo o status das espécies de água potável, e aplicando limites aos nitratos e fosfatos como parte de uma iniciativa do governo para garantir que 90 por cento dos rios e lagos da Nova Zelândia sejam seguros para banhistas em 2040, contra uma estimativa atual de 72 por cento.

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