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Bancos e turma de Trump concordam que regras podem gerar crise

Jesse Hamilton e Ben Bain

(Bloomberg) -- Após a crise de 2008, o governo dos EUA formou o Conselho de Supervisão de Estabilidade Financeira para monitorar ameaças em Wall Street que poderiam provocar outro crash.

Este forte órgão de supervisão, formado por mais de uma dezena de autoridades reguladoras e presidido pelo secretário do Tesouro, ressaltou diversos perigos: um ataque cibernético capaz de paralisar os mercados, a quebra de um banco gigante, o aumento dos empréstimos concedidos por fundos de hedge e firmas de private equity. As agências federais reagiram impondo novas restrições às instituições financeiras.

Agora, com Donald Trump na Casa Branca e Steven Mnuchin comandando o Departamento do Tesouro, o FSOC (sigla para Financial Stability Oversight Council) avalia uma ameaça bem diferente, aos olhos do atual governo. Segundo três pessoas com conhecimento do assunto, o conselho está estudando se os regulamentos em si causam instabilidade financeira em vez de preveni-la.

Wall Street argumenta há um bom tempo que as regras pós-crise enxugaram a liquidez e assim tornaram os mercados mais suscetíveis a choques.

Um ponto crítico é que ficou muito mais difícil negociar ativos em períodos de estresse porque os bancos - que são os maiores compradores e vendedores na praça - foram forçados a colocar o pé no freio. Executivos do setor financeiro colocam a culpa nas restrições aos investimentos e na obrigação de reserva de mais capital para compensar os ativos de risco.

Este debate está cada vez mais presente no trabalho do FSOC, que tem entre seus integrantes os dirigentes do banco central (Federal Reserve), da Comissão de Valores Mobiliários (Securities and Exchange Commission, a SEC) e da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities (Commodity Futures Trading Commission, a CFTC). Autoridades alinhadas a Trump trabalharam para que o conselho começasse a examinar se a Lei Dodd-Frank, de 2010, e a implementação de padrões globais nos EUA tornaram os mercados mais perigosos, segundo duas das pessoas, que pediram anonimato porque as discussões têm caráter privado.

Um grupo de trabalho dentro do FSOC recebeu a tarefa de determinar o impacto das regras sobre a liquidez. No mês passado, o grupo começou a revisar pesquisas (incluindo estudos pagos pelo setor financeiro). Outros fatores, como o aumento da negociação eletrônica automatizada, também serão analisados, segundo uma das fontes.

A revisão é mais um indício de que o FSOC - um painel de 15 agências criado pela Lei Dodd-Frank ? está se tornando uma plataforma para desregulamentação.

Embora não implemente regras, o FSOC pode influenciar profundamente as políticas governamentais. De acordo com informações reveladas em maio por pessoas com conhecimento do assunto, Mnuchin já orientou integrantes do conselho a avaliar se os bancos devem receber mais liberdade para cumprir a chamada Regra de Volcker, que restringe transações especulativas e é detestada por Wall Street.

Novo formato do FSOC

Trump e Mnuchin estão dando uma nova cara ao FSOC, à medida que autoridades nomeadas pelo ex-presidente Barack Obama vão deixando o governo.

Se o grupo de trabalho decidir que as regras aumentaram o risco nos mercados, essa preocupação pode ser incluída em uma lista anual das principais ameaças ao sistema financeiro, de acordo com uma das pessoas que conversaram com a reportagem. Isso fortaleceria o argumento pela flexibilização das restrições aos bancos.

A porta-voz do Departamento do Tesouro, Molly Meiners, se recusou a comentar.

Quando instituições financeiras reclamam do impacto das regras pós-crise, costumam citar o que aconteceu em 15 de outubro de 2014, quando o rendimento dos títulos do Tesouro com prazo de 10 anos desabou e se recuperou em questão de minutos. Desde 1998, a taxa só havia flutuado na mesma magnitude três vezes e em todas elas o catalisador era óbvio. Daquela vez não havia catalisador. O presidente do JPMorgan Chase, Jamie Dimon, disse que o evento deveria servir como um "tiro de alerta" para os investidores.

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