Brasil vive onda de aquisições setor elétrico em meio Lava-Jato

Vanessa Dezem e Sabrina Valle

(Bloomberg) -- A implacável investigação contra a corrupção que sacode o Brasil há três anos está transformando algumas empresas e ativos de energia em uma pechincha para investidores de private equity e rivais de maior porte.

Empresas do setor elétrico envolvidas em problemas jurídicos, com dificuldades financeiras ou que estão reestruturando dívidas estão colocando ativos de boa qualidade à venda, gerando oportunidades para compradores dispostos a enfrentar riscos, segundo Gustavo Miranda, chefe de financiamento corporativo de energia e recursos no Santander Brasil. Esta situação está gerando uma série de negócios, disse ele.

"O país gerou muitas manchetes negativas, mas os investidores que superaram esses problemas estão aproveitando as oportunidades", disse Miranda. "Muitas coisas podem dar errado aqui, mas a eletricidade sempre será necessária."

A Eletrobras, empresa de energia estatal brasileira envolvida na Operação Lava Jato, fechou acordo nesta semana para vender projetos de linhas de transmissão à chinesa Shanghai Electric Power Transmission & Distribution Engineering. Para reduzir dívidas, a empresa também está tentando vender seis companhias distribuidoras de energia, além de participações em grandes usinas hidrelétricas e em cerca de 100 entidades de propósito especial.

A Cemig, outra empresa de energia investigada, anunciou desinvestimentos para "restaurar o equilíbrio financeiro" e reduzir dívidas. A Companhia Energética de Minas Gerais, como a empresa é formalmente conhecida, quer vender participações em firmas de energia como Light, Renova Energia e Transmissora Aliança de Energia Elétrica.

Quanto mais o Brasil revela escândalos de corrupção, mais oferece oportunidades de aquisição para investidores estrangeiros, segundo Fernando Borges, copresidente da Carlyle Group na América do Sul. Os fundos de private equity são investidores de longo prazo e estão menos suscetíveis a oscilações de humor por crises políticas, disse ele.

'No mapa'

"O Brasil está no mapa para as empresas de private equity", disse Borges. "A volatilidade gera oportunidades para os compradores. É sempre bom ter algumas pessoas desesperadas dispostas a vender ativos."

O investimento de private equity no Brasil caiu quase 40 por cento no ano passado, para R$ 11,3 bilhões (US$ 3,5 bilhões), segundo Borges. A continuar no atual ritmo de fechamento de negócios, 2017 poderia registrar nova queda. Mas o volume ainda pode se recuperar já que novos ativos entraram no mercado para venda, disse ele.

O governo brasileiro interrompeu os leilões de energia para novos projetos em um momento em que a pior recessão econômica em um século diminui a demanda por eletricidade. O governo cancelou um leilão previsto para dezembro -- o único do ano passado para energias renováveis -- e não realizou nenhum evento até esta altura do ano.

Na ausência de oportunidades para novos projetos, as aquisições têm sido uma saída para os investidores interessados nos elevados retornos do setor, segundo Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica.

"A crise acelerou as iniciativas de fusão e aquisição no setor", disse Gannoum. Os investidores procuram projetos com contratos de oferta de longo prazo que reduzem o risco. A crescente crise política não muda o interesse de empresas que querem entrar no mercado brasileiro, disse ela.

Queda do mercado

As ações, os títulos de dívidas e a moeda do Brasil caíram no mês passado depois que o presidente Michel Temer foi acusado de tentar obstruir a Lava Jato. Nesta semana, Temer enfrenta um julgamento do Tribunal Superior Eleitoral que pode tirá-lo do cargo. O tribunal, formado por sete integrantes, decidirá se Temer e a ex-presidente Dilma Rousseff receberam contribuições ilegais de campanha em 2014 de propinas envolvendo empresas estatais.

"Mesmo em meio à crise, os investidores veem os ativos de energia no Brasil como 'troféus'", disse Miranda. "Ativos bons e de grande escala, protegidos contra a inflação, com preço justo e menor concorrência."

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