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Ministra milionária quer cortar direitos trabalhistas na França

Angeline Benoit

  • Philippe Lopez/AFP

(Bloomberg) -- Emmanuel Macron nunca disse que seria fácil reduzir os direitos dos trabalhadores franceses. Os últimos três presidentes fracassaram na tentativa. Mas talvez ele próprio não esteja se ajudando.

A ministra do Trabalho que ele escolheu poderia ser garota-propaganda da lógica capitalista que enerva a velha esquerda da França.

Quando era diretora de recursos humanos da Danone na década de 1990, Muriel Pénicaud embolsou 1,2 milhão de euros (US$ 1,4 milhões) com opções de ações e eliminou 900 empregos, de acordo com um jornal local. O valor não inclui os 4,8 milhões de euros que ela recebeu como salário em dinheiro durante três anos.

Relatos sobre as decisões dela como executiva revoltaram os oponentes da Macron na última semana, incentivando a resistência aos planos dele de limitar as indenizações por perda de emprego e diminuir direitos nos acordos coletivos.

O segundo maior sindicato da França, CGT, convocou manifestações para setembro e o assunto já virou um teste da capacidade do presidente de cumprir promessas de campanha para reativar a economia.

"Pénicaud torna uma empreita difícil ainda mais arriscada", disse Jérôme Fourquet, que comanda o instituto de pesquisas Ifop. "A questão é como isso pesará sobre a capacidade do governo de negociar com os sindicatos. Quanto mais dura for sua postura, maior o risco de a opinião pública pender a favor dos oponentes da reforma."

Macron delegou a Pénicaud a tarefa de diminuir substancialmente a burocracia das leis e dos direitos trabalhistas na segunda maior economia da zona do euro.

O fracasso de sucessivos governos nas tentativas de reduzir substancialmente essas proteções tornou a França uma exceção na região. Países como Alemanha e Grécia já flexibilizaram regras para jornada de trabalho e procedimentos de remuneração e demissão, atendendo a solicitações de executivos e autoridades de política monetária.

"É possível um grande avanço", declarou Pénicaud nesta quinta-feira (3) à BFM Business radio. "Cada partido está expressando fortemente sua opinião e claro que nem todos nós concordamos. Os sindicatos estão fazendo sua parte e nós faremos a nossa de arbitragem."

No início da semana, Pénicaud disse a parlamentares que as acusações contra ela foram "dolorosas".

Confiança absoluta

Parlamentares de oposição exigem a saída dela, mas um porta-voz do primeiro-ministro Édouard Philippe afirmou que não há motivo para polêmica e que Pénicaud tem a confiança absoluta do premiê.

Na quarta-feira, o Parlamento autorizou o governo a legislar diretamente sobre o assunto em setembro, permitindo que as mudanças entrem em vigor imediatamente.

"A França realmente precisa se mexer na reforma do mercado de trabalho", disse Thomas Buberl, presidente da Axa, a segunda maior seguradora europeia, em entrevista à Bloomberg TV. "Tenho confiança que Macron e sua equipe estão dedicados a realizar as mudanças necessárias."

A ministra já era alvo de uma investigação envolvendo licitações na agência governamental que ela administrava até a eleição de Macron, em maio. O jornal "Le Canard Enchainé" noticiou na terça-feira que os depoimentos acontecerão no mês que vem.

Pénicaud nega ter descumprido qualquer lei.

"Você colheu pessoalmente os frutos das demissões que implementou", acusou a deputada comunista Élianne Assensi, em 27 de julho, enquanto seus correligionários exibiam a primeira página do jornal L'Humanité, ligado ao partido, com a manchete "O dia do pagamento de 1 milhão de euros de Pénicaud".

"Esta é uma questão séria para uma ministra encarregada de uma reforma que levará à precarização e ao empobrecimento de milhões de trabalhadores."

--Com a colaboração de Ania Nussbaum Caroline Connan Francois de Beaupuy e Geraldine Amiel

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