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Alimentos falsificados da China geram nova fronteira tecnológica

Bloomberg News

(Bloomberg) -- Uma tigela de sorvete em um dia quente em Xangai deu ao americano Mitchell Weinberg o pior ataque de intoxicação alimentar de que ele tem memória. E também inspirou o então consultor comercial a montar a Inscatech ? uma rede global de espiões de alimentos.

Demandada por varejistas multinacionais e produtores de alimentos, a Inscatech e seus agentes vasculham cadeias de abastecimento de todo o planeta buscando evidências de fraude e negligência na indústria de alimentos. Nos oito anos desde que fundou a empresa com sede em Nova York, Weinberg, de 52 anos, diz que a China continua sendo um foco de crescimento tanto para os fraudadores quanto para aqueles que desenvolvem tecnologias para tentar combatê-los.

"Estatisticamente, descobrimos fraudes cerca de 70 por cento do tempo, mas na China é quase 100 por cento", disse ele. "[A fraude] penetra distintos grupos de alimentos e está em tudo o que você possa imaginar."

Embora a adulteração seja um problema dos consumidores desde a primeira vez que o vinho pré-histórico foi diluído com água salgada, devido aos escândalos na China na última década ? como a fórmula de leite para bebês com melamina e a carne de rato disfarçada de cordeiro ? o maior país consumidor e produtor de alimentos do planeta se tornou uma incubadora de alimentos adulterados, falsificados e contaminados.

A empresa de Weinberg está desenvolvendo marcadores moleculares e impressões digitais genéticas para ajudar a autenticar produtos naturais e a diferenciar os alimentos genuínos das falsificações. Outra abordagem que as empresas estão adotando usa a tecnologia digital para rastrear e registrar a proveniência de alimentos, da fazenda ao prato.

"Os consumidores querem saber de onde vêm os produtos", disse Shaun Rein, diretor administrativo da China Market Research Group, citando pesquisas realizadas com consumidores e operadores de supermercados pela empresa de consultoria com sede em Xangai.

'Oportunidade empresarial'

Os serviços que ajudam as empresas a atenuar o risco que a fraude alimentar representa à reputação são uma "grande área de crescimento", segundo Rein. "São uma ótima oportunidade empresarial", disse ele. "Vão ser importantes não apenas na China, mas em todo o planeta, porque as empresas de alimentos chinesas estão se tornando parte da cadeia de suprimentos do mundo inteiro."

Algumas das maiores empresas de alimentos estão financiando uma tecnologia que surgiu do mundo anárquico das moedas criptografadas. A tecnologia chamada blockchain é basicamente um livro-razão de transações compartilhado e protegido por criptografia.

Wal-Mart Stores, a maior varejista do mundo, foi uma das primeiras empresas a apostar nisso e acabou de finalizar um teste usando a tecnologia de blockchain para monitorar a carne de porco na China, onde tem mais de 400 lojas. O tempo necessário para rastrear a cadeia de abastecimento do suíno diminuiu de 26 horas para apenas alguns segundos usando blockchain, e o escopo do projeto está sendo ampliado para outros produtos, disse Frank Yiannas, vice-presidente de segurança alimentar da Wal-Mart, em entrevista na quinta-feira.

US$ 40 bilhões

A Alibaba Group Holding também vê o potencial de que essa tecnologia, existente há oito anos, proporcione maior integridade de produto em suas plataformas, que representaram mais de 75 por cento das vendas do varejo on-line da China em 2015. Em seu projeto de blockchain, a gigante chinesa do comércio eletrônico trabalhará com fornecedores de alimentos da Austrália e da Nova Zelândia, com a Australia Post e com auditores da PricewaterhouseCoopers.

"A fraude alimentar é uma questão global séria", disse Maggie Zhou, diretora administrativa da Alibaba na Austrália e na Nova Zelândia. "Este projeto é o primeiro passo na criação de uma estrutura globalmente respeitada para proteger a reputação dos comerciantes de alimentos e dar maior confiança aos consumidores para comprar alimentos pela internet."

A fraude custa à indústria global de alimentos até US$ 40 bilhões por ano, de acordo com John Spink, diretor da Iniciativa contra a fraude alimentar da Universidade Estadual de Michigan. Na China, onde a crise do leite com melamina em 2008 resultou na morte de pelo menos seis bebês, este é um assunto candente, ainda mais por causa da expansão da classe média e do crescente apetite do país por alimentos de maior qualidade. Um estudo do Pew Research Center no ano passado descobriu que 40 por cento dos chineses consideram que a segurança alimentar é um "grande problema", em contraste com 12 por cento em 2008.

Problema mundial

"Este não é um problema chinês ? é um problema mundial", disse Yongguan Zhu, diretor-geral do Instituto de Meio Ambiente Urbano, parte da Academia Chinesa de Ciências, financiada pelo Estado. "Precisamos reforçar nossos regulamentos para melhorar a transparência da administração, por exemplo, com o compartilhamento de informações."

Zhu diz que a tecnologia de blockchain pode desempenhar um papel importante para melhorar o monitoramento. Seu banco de dados de registros pode ser montado como uma cadeia, que não pode ser interrompida nem reordenada sem atrapalhar toda a conexão.

A China endureceu a lei de segurança alimentar em 2015 devido à onda de escândalos. Quem falsificar ou adulterar alimentos enfrentará penalidades mais duras, inclusive prisão em alguns casos, e mais de US$ 800 milhões foram gastos contratando mais pessoal de segurança alimentar e reforçando instalações de monitoramento, de acordo com um relatório de abril do Paulson Institute, um think tank com sede em Washington. No mês passado, Pequim enfatizou para as autoridades que é necessário agir com franqueza ao divulgar questões de segurança alimentar.

Astúcia

A astúcia dos fraudadores faz com que Weinberg, da Inscatech, esteja menos esperançoso com a tecnologia de blockchain. Sua empresa usa principalmente informantes no local para descobrir em que parte do processo de produção a fraude alimentar ocorre, e a maior parte de seu trabalho na China é com empresas ocidentais que fabricam ou produzem produtos lá.

"O problema é que os dados só são confiáveis se a pessoa que fornece os dados for confiável", disse Weinberg, que diz ter visto de tudo na China, de ovos sintéticos a camarão falso. "Na maioria das cadeias de abastecimento existe um ou mais provedores de dados 'não confiáveis'. Isso significa que a tecnologia de blockchain provavelmente seja inútil para evitar a fraude alimentar, a menos que se corrobore que todos os dados sejam precisos."

Uma investigação sobre o comércio mundial de camarão realizada pela Bloomberg durante meses no ano passado mostrou como documentos não confiáveis espalharam um esquema ilegal de transbordamento envolvendo exportadores chineses de produtos de aquicultura.

Mas a tecnologia de blockchain está a "anos-luz" de distância do sistema usado hoje pela indústria mundial de alimentos, que depende muito dos registros em papel, disse Yiannas, chefe de segurança alimentar da Wal-Mart. Ao registrar a identidade daqueles que introduzem dados na cadeia, a tecnologia acaba com o anonimato que ajudou a fraude alimentar a prosperar, disse ele.

O papel dos seres humanos no registro da cadeia de abastecimento também diminuirá, disse Yiannas. "Mais e mais desses documentos vão acabar sendo registrados de forma automatizada."

A Administração de Alimentos e Medicamentos da China não respondeu imediatamente a um e-mail com um pedido de comentários sobre os esforços de segurança alimentar do país.

--Com a colaboração de Jiefei Liu Lulu Yilun Chen Yuji Nakamura Samuel Dodge Shuping Niu e Yue Qiu

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