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Doria recua, se volta para SP, sem desistir da ambição nacional

Raymond Colitt, Vanessa Dezem e Julia Leite

(Bloomberg) -- Há seis meses, o prefeito de São Paulo, João Doria, revelou ambições presidenciais, viajando pelo país e pelo mundo professando uma agressiva agenda pró-mercado e um estilo de gestão com o slogan "Acelera São Paulo".

Em entrevista exclusiva à Bloomberg em seu escritório em São Paulo nesta semana, ele assumiu um tom mais humilde e realista, falando sobre a necessidade de fazer mais pela cidade, firmar uma aliança de centro-direita e se concentrar em bem-estar e emprego como meios para atingir seus objetivos nacionais.

Por que a mudança de atitude? Segundo ele, candidatos de extrema direita e extrema esquerda estão subindo nas pesquisas eleitorais, ameaçando a recuperação da economia e possivelmente surpreendendo investidores.

"Se continuarmos divididos, a eleição será perdida para um dos dois candidatos extremistas", disse o empresário de 59 anos que já foi apresentador do programa "O Aprendiz". "O risco do extremismo aumentou. O Brasil precisa de alternativas para que esse risco não dure até outubro."

A classe política pena após a pior recessão da história do Brasil e os três anos de escândalos que colocaram dezenas de executivos, parlamentares e lideranças partidárias na cadeia. O que os eleitores priorizam no ano que vem é um candidato experiente e com ficha limpa, de acordo com a Datafolha.

Espectro político

Dória, que nunca tinha sido eleito a nenhum cargo, tornou-se o primeiro candidato em mais de duas décadas a vencer a eleição para prefeito de São Paulo no primeiro turno, em outubro de 2016.

Mas no País como um todo, o quadro político é outro. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliou a liderança nas pesquisas para 36 por cento das intenções de voto, apesar de ter sido condenado por corrupção. Se a condenação for mantida após recurso, ele será impedido de concorrer no ano que vem.

Na outra ponta do espectro político está o capitão da reserva Jair Bolsonaro, com quase 16 por cento. Em seus 26 anos no Congresso, ele teve apenas duas propostas aprovadas e admite que seu entendimento de economia é superficial.

Otimismo excessivo

Para Doria, expectativas pouco realistas tornam o cenário propício para decepção: Lula pode não ser impedido de concorrer e Bolsonaro pode superar a elevada rejeição a sua candidatura. "O Brasil não suporta mais um governo populista. O Brasil não resistirá e se não resistir, será uma nova Venezuela na América Latina", ele disse.

Mesmo se Lula for impedido, ainda terá peso na eleição, segundo Doria. "Candidato ou não, Lula será uma força eleitoral."

A gestão de Lula foi marcada por considerável crescimento econômico e distribuição de renda, mas críticos afirmam que ele e sua sucessora, Dilma Rousseff, colocaram em risco as finanças públicas. O Brasil perdeu o grau de investimento em 2015.

Doria teve algumas vitórias desde que assumiu a prefeitura. Ele reduziu o tempo de espera para atendimento médico e atraiu recursos federais e doações privadas para superar restrições orçamentárias.

Outras ideias dele foram duramente criticadas, como a de servir na merenda escolar um granulado de proteína parecido com ração animal. A proposta foi retirada. Ele também foi atacado por viajar frequentemente e desafiar seu mentor, o governador paulista Geraldo Alckmin. Após meses de rivalidade, os dois tentaram passar uma imagem de união nas últimas semanas.

A aprovação a Doria vem diminuindo consistentemente ao longo do ano, de 44 por cento em fevereiro para 32 por cento no mês passado, segundo o último levantamento da Datafolha.

A decisão dele de diminuir as viagens e focar em São Paulo não significa que desistiu da presidência. Para projetar essa ambição nacional, ele disse que primeiro precisa fazer um bom trabalho na cidade.

Quanto à aparente mudança de estratégia e retórica após 11 meses no cargo e com as eleições nacionais se aproximando, ele afirma que é marca do bom líder reconhecer a necessidade de mudanças e reagir rapidamente.

"Você precisa pegar a prancha e surfar na onda antes que ela engula você", diz o prefeito, que não surfa, dorme pouco, mas malha todos os dias.

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