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Mortes mostram pior faceta da medicina chinesa moderna

Bloomberg News

(Bloomberg) -- Bem cedo, em uma nevada manhã de inverno de janeiro de 2012, o fazendeiro Wu Xiaoliang, de 37 anos, procurou seu médico para tentar remediar uma dor de cabeça. Em uma pequena clínica próximo a sua aldeia, recebeu duas injeções de ervas tradicionais chinesas. Horas depois, aldeões o viram subir com dificuldades em sua moto para ir para casa. Ao meio dia, estava morto.

O que matou Wu foi posteriormente descrito no relatório da autópsia como "alergia a medicamentos". Mas os médicos não conseguiram identificar a que era alérgico, porque as injeções que recebeu continham dezenas ou até centenas de diferentes compostos extraídos de duas ervas.

Os chineses compram há séculos plantas e partes de animais de clínicas tradicionais, que são fervidas para preparação de sopas amargas usadas para tratar resfriados, acidentes vasculares cerebrais e até câncer. Mas o setor de medicina chinês se modernizou juntamente com o restante do país, e fabricantes locais transformaram receitas antigas em drogas injetáveis de ação rápida.

As injeções de medicamentos chineses geraram US$ 13 bilhões em receitas no ano passado, segundo a empresa de pesquisa Forward Industries Institute. Empresas de capital aberto avaliadas em bilhões de dólares prosperaram, tirando proveito de grandes fundos internacionais como os gerenciados por Schroders, UBS e Skagen, detentores de suas ações.

No entanto, a ascensão do setor também levantou problemas de saúde pública. Atualmente vende-se na China mais de uma centena de injeções baseadas em receitas tradicionais, algumas sem passar por testes rigorosos em humanos. Os médicos normalmente as prescrevem em uma série de combinações não testadas. As reações adversas, desde erupções cutâneas até mortes como a de Wu, dobraram em relação a 2011, para cerca de 133.000 no ano passado, segundo dados do governo.

Após décadas de tentativas de controlar o setor, os órgãos reguladores começaram recentemente a pressionar pela revisão das injeções baseadas na medicina chinesa, procurando eliminar produtos inseguros e ineficazes. Mas o processo pode levar até uma década dada a complexidade desses produtos farmacêuticos intravenosos.

"No caso da maioria desses produtos químicos, as propriedades e a segurança para o corpo humano não foram devidamente avaliadas e algumas sequer foram descobertas", disse Justin Wu, decano associado do departamento de Medicina da Universidade Chinesa de Hong Kong. "Se nos concentrássemos apenas nesse ponto, não creio que as injeções de medicamentos tradicionais chineses pudessem ser aprovados por alguma entidade reguladora fora da China."

Empresas farmacêuticas como China Shineway Pharmaceutical, Guangxi Wuzhou Zhongheng, Tianjin Chase Sun Pharmaceutical e Livzon Pharmaceutical estão atualmente entre as maiores empresas de capital aberto que geram receitas significativas com remédios tradicionais na forma injetável. As fabricantes sustentam que as injeções são seguras e que os problemas decorrem do uso incorreto pelos médicos.

Ainda assim, devido ao histórico de regulação frouxa, muitos injetáveis baseados na medicina chinesa não foram avaliados em testes clínicos científicos rigorosos. Significa que as reações provocadas no corpo não são totalmente conhecidas. Os medicamentos chineses são baseados em séculos de experiência prática, mas tradicionalmente são tomados por via oral, o que dá ao sistema digestivo a chance de proteger os pacientes de produtos químicos nocivos. A injeção das misturas na corrente sanguínea pode aumentar os efeitos colaterais.

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