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Análise: Novo líder do Fed precisará manter comunicação aberta

Stephen Gandel

(Bloomberg) -- Logo, logo, o Federal Reserve precisará fazer mais e falar menos. Será uma grande mudança no banco central dos EUA, que, na opinião de muitos, andou falando demais nos últimos anos.

Um exemplo da postura mais ativa do Fed ocorreu na quarta-feira. Como esperado, a instituição elevou a meta para a taxa básica de juros de curto prazo em 0,25 ponto percentual, para um intervalo entre 1,25 por cento e 1,50 por cento. Foi o terceiro aumento do ano e apenas o quinto desde a crise financeira. O Fed manteve os juros próximos de zero por sete anos. O banco central também demorou para reverter o programa de estímulo quantitativo. No comunicado oficial de quarta-feira, a instituição afirmou que estava "monitorando de perto os desdobramentos da inflação", embora a maioria concorde que tem sido difícil detectar qualquer movimento preocupante na inflação.

Provavelmente esta foi a última grande decisão de juros sob o comando de Janet Yellen. O presidente Donald Trump indicou Jerome Powell para ocupar a liderança do Fed e Yellen disse que sairá assim que o nome dele for confirmado.

A abertura foi marca de Yellen no Fed, antes mesmo de ela assumir o principal cargo na instituição. Ela defendeu a realização de entrevistas coletivas regulares com a imprensa e se especializou em tirar o Fed de situações delicadas. Durante o período que ficou conhecido como "taper tantrum", ela recomendou que o mercado não se preocupasse porque demoraria para o Fed subir os juros. Quando aumentou os juros pela primeira vez, ela recomendou que o mercado não se preocupasse porque demoraria para o Fed vender sua carteira de títulos de US$ 4 trilhões. Quando o Fed começou a reduzir a carteira de títulos, Yellen reforçou que os juros subiriam lentamente. Em cada etapa, Yellen fez com que o mercado se concentrasse na etapa seguinte para assim diminuir a turbulência da etapa em curso. Funcionou.

Powell não elaborou totalmente sua visão sobre o grau de abertura ideal do Fed, mas acho que ele prefere falar menos do que seus dois antecessores imediatos. Em público, ele declarou temer que a comunicação do Fed levasse investidores a não dar importância às projeções da instituição. Ele questionou a divulgação do gráfico de projeções conhecido como "dot plot". Além disso, o caminho que o Fed tem pela frente é mais claro e convencional do que o de Ben Bernanke, que lidava com a crise financeira, ou de Yellen, que herdou programas já implantados. A expectativa é que o Fed eleve os juros três vezes no ano que vem, como fez neste ano. E é bem mais fácil explicar e justificar acréscimos (ou cortes) nos juros do que compras de trilhões em títulos. E para completar, Powell tem menos margem de manobra. Não há etapa seguinte à qual direcionar a atenção do mercado. Aumentar mais os juros é o que resta para o Fed retomar a política monetária normal.

Alguns acreditam que o trabalho de Powell será muito mais fácil que o de Yellen ? e com certeza, mais fácil que o de Bernanke. Talvez. Mas eu concordo com meus colegas da Bloomberg View que afirmam que a missão de Powell será mais difícil do que parece. A maior preocupação é que as taxas de longo prazo não acompanharam a elevação dos juros de curto prazo pelo Fed. Se o quadro persistir, o Fed talvez não consiga seguir seus planos. Powell pode ser forçado a estimular a inflação de algum modo, sem reduzir o ritmo de aperto dos juros. Se, por outro lado, os cortes de impostos acelerarem a economia e reduzirem mais o desemprego sem elevar significativamente a inflação, ele pode ser obrigado a explicar porque os modelos tradicionais não estão funcionando.

Há quem diga que o trabalho de Powell se resumirá a manter as mãos no volante. Mas o trabalho maior dele talvez seja com o microfone. E, para Powell, isso pode ser mais complicado do que parece.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião da Bloomberg LP e seus proprietários.

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