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Moedas digitais começam a afetar economia real: Bloomberg View

Conor Sen

19/12/2017 14h29

(Bloomberg) -- Até o momento, a disparada nos mercados de moedas digitais tem sido um espetáculo paralelo aos mercados financeiros ou à economia real. Os preços da bitcoin e outras moedas digitais subiram muito e é divertido fazer piadas sobre a valorização de instrumentos com nomes como Cardano e Monero. Se tudo isso fosse para o vinagre amanhã, a vida das pessoas comuns não seria afetada.

No entanto, empresas com ações negociadas em bolsa começaram a tomar decisões para mostrar que podem se beneficiar das moedas digitais e são recompensadas generosamente pelos mercados por essas decisões. Se isso for adiante, as pessoas que não estão envolvidas com moedas digitais vão sofrer com o colapso desses instrumentos. E esse colapso vai acontecer.

Um novo símbolo do movimento talvez seja a Longfin Corp. A ação subiu mais de 2.000 por cento na semana após a empresa anunciar que comprou uma "provedora de soluções globais de microcrédito empoderada pela blockchain". Quando uma ação dispara por causa de um comunicado à imprensa como este, é importante não se prender aos detalhes do anúncio ou ao que isso significa para o negócio. É o próprio barulho que causa distorções nos mercados.

Esse desdobramento da mania das moedas digitais ficou quase óbvio depois da alta de algumas "moedas menores" na semana passada. O website coinmarketcap.com traz uma lista das principais moedas digitais e, na semana passada, algumas que iniciaram a semana abaixo de US$ 1 tiveram valorização de 100 por cento ou mais. Uma teoria sobre o movimento é que, com a bitcoin custando mais de US$ 15.000, novos participantes do mercado virtual que depositam poucos milhares de dólares só conseguem comprar uma fração de bitcoin. Psicologicamente, ser dono de uma fração de algo costuma ser frustrante. O mesmo pequeno depósito serve para comprar centenas ou milhares de moedas mais baratas, dando impulso a esses instrumentos.

O avanço de moedas desconhecidas acompanhando a bitcoin cria um novo elemento psicológico para quem deseja encontrar "a próxima bitcoin". E se os preços de moedas que não são bitcoin dobram ou triplicam em uma semana, por que o mesmo não aconteceria com as ações de empresas que promovem seu vínculo com essa tendência?

Tudo isso faz sentido para quem participa do mercado de moedas digitais, mas deve começar a preocupar quem espera que o mercado real e a economia permaneçam isolados do Velho Oeste virtual. O entusiasmo pela Longfin mostra que o mercado quer uma oferta maior de empresas com vínculos com moedas digitais. E Wall Street sabe muito bem como providenciar nova oferta quando há demanda de investidores. Seja por meio de aquisições, comunicados à imprensa ou modelos de negócios, veremos mais companhias de capital aberto se aproximando das moedas digitais enquanto a mania durar.

Essas companhias com valorização recente dificilmente usarão bem o capital e outros recursos. Essas empresas vão contratar pessoal, alugar espaço comercial, comprar equipamentos e gastar dinheiro em publicidade para correr atrás da disparada das moedas digitais. Esse dinheiro fluirá para companhias de verdade que prestam serviços a empresas que são especuladoras de moedas digitais, aumentando a exposição da economia real à economia digital. Isso proporcionaria um impulso temporário ao crescimento econômico, mas sua qualidade é questionável.

Até agora, tem sido fácil esnobar a ascensão das moedas digitais ou mesmo ignorá-las. Mas à medida que o movimento de alta se espalha da bitcoin para outras moedas e para empresas que promovem seus vínculos com moedas virtuais e potencialmente para empresas que disputam recursos na economia real, as moedas digitais impactarão a economia real.

Chegou a hora de prestar atenção ? e de sentir medo.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do conselho editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

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