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Sindicato francês perde força em era de Macron e Uber

Helene Fouquet e Mark Deen

03/01/2018 15h27

(Bloomberg) -- Philippe Martinez está sentado em uma cadeira de couro preto de frente para um cartaz da lenda revolucionária Che Guevara em seu escritório, que tem cheiro de cigarro e fica no último andar de um edifício no limite leste de Paris. Ele enfrenta a crescente falta de relevância de seu sindicato para uma nova geração de trabalhadores.

Aos 56 anos, o líder do sindicato francês Confederação Geral do Trabalho - que, no auge de seu poder, conseguia parar o país e fazer com que presidentes estremecessem - está tendo dificuldade para conquistar os trabalhadores mais jovens, atraí-los para o movimento sindical e adaptar a ação coletiva a uma era de tecnologia e individualismo.

"As coisas têm mudado muito mais rapidamente do que a nossa capacidade de reagir", disse Martinez em uma entrevista no final do ano passado, na sede da CGT, um edifício de oito andares construído em 1974. "Demoramos a enfrentar as mudanças no mundo do trabalho, a evolução das empresas e da fragilidade social."

Criada em 1895, a CGT ajudou a moldar as leis francesas relativas a trabalho, salários, horas e férias remuneradas. Com vínculos posteriores à Segunda Guerra Mundial ao Partido Comunista, que podia tirar proveito de seu histórico de resistência à ocupação nazista para obter influência política, a CGT conquistou poder em diversos âmbitos, como treinamento profissional, seguridade social e até distribuição da imprensa. Agora, diante das mudanças trabalhistas do presidente Emmanuel Macron e de uma economia digital que não chega a compreender, a CGT enfrenta sua maior ameaça: a possibilidade de se tornar uma instituição do passado.

'Acompanhar o ritmo'

Com líderes da velha guarda que continuam a lutar usando ferramentas obsoletas, a queda na adesão está acelerando. Em 27 de dezembro, o jornal Le Canard enchaîné citou documentos internos para informar que o sindicato perdeu mais de um terço de seus membros em 2017, ficando com 427.231, principalmente homens na casa dos 50. A CGT contestou a reportagem. Logo após a guerra, o sindicato reunia cerca de 5 milhões de membros.

"Eles estão um passo atrás, tentando acompanhar o ritmo", disse Stéphane Sirot, professor da Universidade de Cergy-Pontoise, especializado em sindicatos. "A CGT nasceu durante a primeira revolução industrial. Em sua mentalidade, em sua organização, em sua compreensão do mundo e em sua capacidade de reagir à mudança, ela não mudou muito. Ela está ameaçada pela falta de capacidade para evoluir."

Esta situação se intensifica porque Macron prometeu mudar radicalmente o cenário trabalhista em 2018. O presidente aprovou uma reforma histórica do código trabalhista francês em setembro. A CGT não conseguiu reunir nem 100.000 trabalhadores para protestar contra as mudanças que dão às empresas mais poder para negociar horas e remuneração, reduzir o número de comitês de trabalhadores e limitar as penas por demissão sem justa causa.

O presidente de 40 anos, cuja palavra favorita é "ruptura", comprometeu-se a modernizar a economia da França, para que suas instituições se adaptem mais aos trabalhadores independentes, como os motoristas da Uber Technologies, enquanto busca maneiras de gerar trabalho para reduzir a taxa de desemprego, estagnada em torno de 10 por cento.

"Muitos trabalhadores e muitos jovens assumem esses empregos agora porque acham que terão liberdade e independência", disse Martinez. "Eles acabam descobrindo que não são empregados assalariados, mas também não são nem livres nem independentes."

Convencer esses trabalhadores da relevância da CGT talvez seja a maior luta da história do sindicato.

--Com a colaboração de Geraldine Amiel e Angeline Benoit

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