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Campo da economia começa a reconhecer desigualdade de gênero

Jeanna Smialek

08/01/2018 17h59

(Bloomberg) -- Melissa Kearney, economista da Universidade de Maryland, tem um cargo vitalício e um currículo repleto de artigos acadêmicos sobre assuntos populares. Ela é membro sênior da Brookings Institution. No entanto, pouco tempo atrás, ela estava pensando em abandonar o campo.

Publicações anônimas no site Economics Job Market Rumours - um fórum de discussão pública onde economistas mulheres frequentemente são objeto de discussões longas e virulentas - criticaram duramente suas pesquisas e apresentações. Junto com o assédio de um homem em seu departamento, os comentários, muitos deles objetificantes, foram quase a gota d'água, disse Kearney.

"Foi simplesmente esgotante e totalmente desmoralizante", disse ela.

Agora, Kearney considera que seu campo está passando por uma transformação. A American Economic Association pretende criar uma alternativa ao fórum on-line depois que um artigo acadêmico chamou atenção para seu linguajar sexista e uma petição que o condenava reuniu mais de mil assinaturas. A AEA planeja adotar um código formal de conduta, em parte por causa das revelações.

A atenção para os maus-tratos na internet está dando mais impulso a uma discussão mais ampla sobre o gênero na economia. Na reunião anual da AEA no fim de semana, uma sessão lotada foi dedicada a questões de gênero no campo, da falta de diversidade nos manuais às salas de aula. O atual diretor da organização, Alvin Roth, professor da Universidade Stanford, teórico da teoria dos jogos e vencedor do Prêmio Nobel, destacou o artigo acadêmico sobre estereotipagem na internet - escrito pela aluna de Economia Alice Wu - em seu discurso.

'Certa masculinidade'

Embora o momento não se compare com o movimento "Me Too" ("Eu também"), presente nos setores de entretenimento, mídia e tecnologia, com revelações de agressões e discriminação, o campo econômico está reconhecendo aos poucos que as mulheres enfrentam obstáculos únicos, às vezes intencionais e explícitos, como no caso do fórum on-line, ou mais sutis e talvez até mesmo involuntários.

"Há certa masculinidade construída em volta da economia", disse Betsy Stevenson, economista da Universidade do Michigan, membro do comitê executivo da AEA e colunista da Bloomberg View. "O artigo de Alice é um momento essencial."

A pesquisa de Wu concluiu que as discussões no site com referências a mulheres continham mais de 50 por cento menos termos acadêmicos do que aquelas sobre homens e tinham maior probabilidade de conter adjetivos físicos, como "gostosa" e "atraente". Algumas das palavras mais associadas com publicações sobre mulheres foram "peito", "vadia" e "beijou". Algumas das mais associadas com publicações sobre homens são "macro" e "supervisor".

Universidades e bancos centrais abrigam uma dinâmica de gênero menos sinistra, mas ainda prejudicial, onipresente em muitas profissões: mulheres têm mais dificuldades para avançar de várias formas mensuráveis.

Artigos publicados por autoras estão mais bem escritos com base numa análise de legibilidade, e a diferença é bem mais ampla nas versões publicadas do que nos rascunhos - fato que sugere que elas não são inerentemente melhores como escritoras. Elas editam mais. Isto corresponde a "padrões mais duros de publicação", segundo estudos de Erin Hengel, economista da Universidade de Liverpool.

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