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Luciano Huck flerta com mercados com discurso presidencial

Raymond Colitt e Bruce Douglas

16/01/2018 14h35

(Bloomberg) -- Era uma aparição bastante tranquila da estrela da TV Luciano Huck no programa de maior audiência do Brasil de domingo à noite -- até ele começar a falar sobre política. Então, muitos espectadores se remexeram em seus lugares e se inclinaram em direção à tela.

Huck, então, começou a fazer um discurso apaixonado sobre a necessidade de consertar uma classe política quebrada introduzindo ética e altruísmo e mobilizando uma nova geração. Para fechar, rematou: "Neste momento, se eu me isentar de tentar melhorar, eu estaria sendo covarde", disse Huck, com a esposa, Angélica, de pé ao lado dele. "O que o destino e Deus esperam para mim, eu deixo rolar."

Assim como o discurso de Oprah Winfrey na premiação do Globo de Ouro -- que, curiosamente, ocorreu naquele mesmo dia -- foi visto como a salva de abertura de sua carreira política, a aparição de Huck na TV foi entendida por muitos no Brasil como um sinal claro de aspiração presidencial. A eleição nos EUA será só no fim de 2020. Mas a do Brasil será daqui a apenas nove meses. Por isso, existe um verdadeiro senso de imediatismo na pergunta "será que Huck vai ser candidato?", especialmente para investidores e empresários, desesperados para apoiar um candidato de centro que considerem capaz de continuar a recuperação do país de uma crise política e econômica.

'Sobre o Brasil'

Em alguns aspectos, Huck -- um paulistano de 46 anos que estudou Direito -- é o candidato dos sonhos que os investidores buscam. Não apenas por ter o tipo de apelo popular que a maioria dos outros candidatos de centro não tem, graças ao trabalho de apresentador de programas de variedades na TV, mas também por sua experiência em negócios. Assessorado pelo lendário investidor carioca Armínio Fraga, Huck fundou sua própria empresa de investimentos para startups. Em resposta lacônica por e-mail a perguntas sobre o relacionamento com Huck, Fraga se limitou a dizer que os dois têm conversado "sobre o Brasil".

"Ele teria chances muito fortes de ganhar", disse Renato Nobile, CEO da Bullmark Financial Group. "Ele atende muitos critérios, tanto para o mercado financeiro quanto para o povo cansado da política tradicional."

A imagem de um homem de família empreendedor e fã de kite-surf não apenas contrasta fortemente com a dos septuagenários que atualmente dominam o governo, mas também pode comover muitos dos eleitores que clamam por uma geração mais jovem de políticos limpos e mais representativos.

O programa "Caldeirão do Huck" é item básico das tardes de sábado há quase duas décadas. Apresenta música, competições, celebridades e histórias de má sorte de brasileiros comuns que às vezes choram de gratidão pela chance de aparecer no programa. Huck -- atlético, bem arrumado, com um sorriso travesso -- é o líder de tudo isso, rindo e se solidarizando com os convidados e o público.

A especulação em torno de sua candidatura reflete, em parte, o desespero de muitos brasileiros para encontrar um salvador que coloque o País de volta nos trilhos após anos de escândalos de corrupção e recessão. "O Brasil tem um histórico de estrelas da mídia que parecem fazer algo pelos pobres", diz Carlos Manhanelli, consultor de marketing eleitoral em São Paulo. "É ilusório pensar que ele pode simplesmente repetir na vida real o que faz na TV."

Durante mais de três anos, os brasileiros viram muitos empreendedores e políticos importantes serem presos à medida que as autoridades descobriam enormes esquemas de corrupção para financiar campanhas eleitorais e consumo de luxo.

Concorrência pela frente

A presidente Dilma Rousseff sofreu impeachment em meio a um escândalo em 2016 e seu substituto, Michel Temer, tem enfrentado acusações de corrupção desde que assumiu o cargo. Com isso e com a recessão brutal que eliminou milhões de empregos, há muita gente descontente. A satisfação dos brasileiros com a democracia é a mais baixa da região, segundo pesquisas.

Ainda assim, apostar em um candidato sem experiência política para formar uma base aliada ampla de mais de duas dúzias de partidos no Congresso tem seus riscos.

"Ele precisaria do apoio dos grandes partidos brasileiros", disse Maria Hermínia Tavares de Almeida, cientista política da Universidade de São Paulo. "E eu acho que eles não o apoiarão."

De fato, a maior parte dos grandes partidos pretende apresentar seus próprios candidatos, e a concorrência parece grande, considerando a disputa do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para serem o candidato do centro.

Em cima do muro

Se Huck acabar dividindo o voto do centro com eles, isso poderia abrir caminho para a eleição de um candidato mais radical, como o ex-oficial do Exército Jair Bolsonaro, ou até do pressionado ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Quanto mais fragmentado, pior será", disse Pedro Barbosa, estrategista de renda fixa da corretora Renascença, em São Paulo.

Huck, por sua vez, continua desconversando. Pouco depois da aparição na TV, ele disse em postagem no Facebook que não é "candidato a nada", reiterando a declaração feita em novembro. Segundo Cristiano Noronha, cientista político da consultoria Arko Advice, ele provavelmente ficará em cima do muro mais um tempo para avaliar suas chances. Se, por exemplo, o apoio a Alckmin continuar baixo, ele poderia detectar a oportunidade de entrar na disputa.

Pode haver dúvidas quanto à transferência de talento da TV para a política, mas a agitação da mídia em torno da possível candidatura de Huck aumentou ainda mais o número de seus seguidores nas redes sociais. Atualmente, está em 43,4 milhões de pessoas. O número é cinco vezes maior do que o de qualquer outro candidato.

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