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Parlamentares britânicos usam WhatsApp para tudo, menos política

Robert Hutton e Kitty Donaldson

(Bloomberg) -- No Reino Unido, as conspirações políticas passaram das entranhas do Palácio de Westminster para os grupos secretos do WhatsApp, as salas esfumaçadas do século 21 -- pelo menos segundo a crença popular.

A realidade, segundo os parlamentares, é bem diferente. Muitas vezes desprovidos de políticas e até mesmo de rumores políticos, os grupos de WhatsApp têm mais fotos de gatos e de jantares em lugares não tão exóticos e comentários sobre a programação televisiva da noite anterior do que intrigas de verdade.

O uso do aplicativo do Facebook para grupos de bate-papo criptografados e fáceis de criar é comum no Parlamento. Há um grupo de deputadas do Partido Trabalhista, um de deputados do Partido Conservador sem cargos ministeriais, um dos autodeclarados moderados do Partido Trabalhista, um dos conservadores que representam assentos do norte da Inglaterra e diferentes grupos para cada novo segmento. Ou seja, o WhatsApp transformou a política britânica -- mas não do jeito que muitos supõem.

"Quem imagina conspirações estilo 'House of Cards' ficaria bastante decepcionado", disse o deputado conservador James Cleverly, eleito em 2015 e novamente no ano passado, por meio, obviamente, de uma mensagem de WhatsApp. "A maior parte das conversas do WhatsApp são mundanas, tipo 'você pode me cobrir em um comitê?', ou fotos compartilhadas da corrida parlamentar anual de panquecas e cachorros."

Alguns grupos contêm "verdadeiros debates políticos" ou mensagens urgentes em busca de quóruns em comissões, segundo a deputada trabalhista Jess Phillips, também eleita pela primeira vez em 2015.

Outros claramente não.

"O melhor, de longe, é o criado especificamente para discutir Love Island, no qual usamos lousas e votos em bloco em prol de nossos candidatos favoritos", disse Phillips -- também pelo WhatsApp --, em referência ao reality show da emissora ITV.

Leão e unicórnio

Até mesmo o bate-papo do sigiloso Grupo Europeu de Pesquisa, que ganhou notoriedade por servir de base de poder dos parlamentares conservadores -- muitos deles defensores do chamado Brexit duro --, é menos interessante do que parece à primeira vista, disse um dos mais de 90 integrantes sob a condição do anonimato.

Mesmo apesar do logotipo, que retrata o HMS Victory, navio-almirante da Marinha Real Britânica que ajudou a derrotar a frota de Napoleão em 1805, sob um leão, um unicórnio e a coroa britânica.

Mas não há conspirações no ERG/DexEU/DIT Support Group -- para citar o nome completo do grupo --, segundo o parlamentar. Na verdade, é um fórum para discutir qualquer assunto relativo ao Brexit, e entre os integrantes há vários ministros e apoiadores de uma relação mais próxima com a UE.

Ainda assim, este é um exemplo de como os grupos podem gerar alarme em quem fica de fora. Os aliados do secretário de Meio Ambiente, Michael Gove, criaram um grupo chamado Phoenix, o que, segundo o jornal Mail on Sunday, preocupou a equipe da primeira-ministra Theresa May, que pensou que a manobra representava uma fênix elevando-se das cinzas e os planos de Gove de derrubá-la. Depois descobriu-se que se tratava do nome do pub onde os integrantes costumavam se encontrar.

"O WhatsApp é terrível", disse a deputada do Partido Trabalhista Lucy Powell, depois de acidentalmente criticar colegas em um grupo com mais integrantes do que ela imaginava. "Aprendi uma dura lição. Foi triste."

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