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Após escândalo em Wall Street, redes de experts chegam à Europa

Julie Edde, Nishant Kumar e Suzy Waite

02/03/2018 15h03

(Bloomberg) -- Investidores da Europa podem estar cortando o orçamento para compra de pesquisas, mas estão mais dispostos do que nunca a pagar até US$ 1.300 por hora de conversa com profissionais que possam colocá-los em vantagem.

Uma nova lei que entrou em vigor na União Europeia proíbe bancos de distribuir de graça pesquisas sobre ações. Sendo assim, algumas gestoras de recursos preferem gastar dinheiro para conversar com especialistas sobre setores badalados, como inteligência artificial, ou de nichos, como embalagem de salsichas.

Há quase uma década, surgiram manchas na reputação de firmas que colocavam Wall Street em contato direto com pessoas de grande conhecimento em suas respectivas áreas, chamadas redes de experts. Isso ocorreu porque alguns fundos de hedge clientes dessas redes usaram informações confidenciais obtidas junto a esses profissionais para negociar ativos e acabaram na cadeia.

No entanto, após anos de esforços para enquadramento nas leis e reconstrução de suas marcas, as redes de experts se livraram do estigma e os anos de crise são uma lembrança distante. Primeiramente, fizeram progresso na Ásia e, agora que o negócio vai de vento em popa nos EUA, o próximo alvo é a Europa.

"Parece que eles estão contatando todo mundo freneticamente", disse Phil Chapple, diretor operacional do fundo de hedge Monterone Partners, de Londres, que chegou a receber dois telefonemas por dia de redes que tentavam recrutá-lo.

Firmas como Gerson Lehrman Group (GLG), a principal rede de experts dos EUA, e concorrentes europeias como Third Bridge e AlphaSights, criam bases de dados privadas de consultores em todo o mundo. Alguns pacotes básicos cobram US$ 100.000 para uma empresa colocar seus funcionários em contato com os especialistas corretos. O valor pode subir se o tempo de conversa não for suficiente.

É aí que entram em cena personagens como Hermann Plank, especialista em plásticos. "Em cinco minutos, eu posso passar para algumas instituições financeiras informações que levariam semanas ou meses para obter com diligência prévia e análise de dados", garantiu ele.

Plank recebe umas três ligações por mês para prestar esses serviços. Durante as últimas três décadas, ele já ajudou empresas como Becton Dickinson, Unilever e Pfizer a desenvolver produtos como lâminas de barbear descartáveis e rins artificiais.

Ele atua como consultor desde 2005 e afirma que, embora os experts possam ter conhecimento de informações confidenciais, eles sabem identificar o que infringe a lei ou não.

Os experts oficialmente recebem treinamento sobre o que constituem informações relevantes e não públicas. Grandes aquisições que estão para ser anunciadas, planos de fechar lojas e resultados de testes com medicamentos ainda não divulgados pelos cientistas claramente são proibidos. Plank regularmente preenche pesquisas de compliance para a GLG e assina contratos de confidencialidade.

Mesmo assim, o pior escândalo de negociação com informações privilegiadas da história dos EUA mostrou que as regras podem ser violadas. A partir de 2009, 95 pessoas foram condenadas na investigação comandada por procuradores e pelo FBI em Nova York, incluindo gestores de fundos, analistas e funcionários de empresas de capital aberto que estavam fazendo "bicos" como consultores das redes de experts.

Um episódio chocante envolveu um ex-gestor de fundos da SAC Capital. Mathew Martoma foi condenado a nove anos de prisão em 2014, após vender segredos sobre um medicamento experimental contra Doença de Alzheimer que ele ouviu de Sidney Gilman, neurologista que conheceu por meio da GLG.

A SAC conseguiu lucrar e evitar mais de US$ 275 milhões em perdas quando foi divulgado que os testes com o remédio fracassaram.
"Não há dúvida de que redes de experts porem ser usadas inadequadamente por traders para obter de gente de dentro das empresas informações que não são de conhecimento público", disse Arlo Devlin-Brown, que já foi procurador federal em Nova York e atuou em casos de insider trading. Na Europa, "o setor financeiro faria bem em utilizar redes de experts com boa reputação e programas de compliance para se proteger."

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