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Títulos do Tesouro dos EUA como arma na guerra comercial?

Brian Chappatta

07/03/2018 13h33

(Bloomberg) -- Ser dono de US$ 1 trilhão em títulos do Tesouro americano não significa tanto poder quanto antigamente.

A ameaça de novas taxas sobre as importações de aço e alumínio pelos EUA e a consequente saída do principal assessor econômico da Casa Branca, Gary Cohn, elevaram a possibilidade de uma guerra comercial. Não só isso, há relatos de que o governo do presidente Donald Trump considera uma série de restrições à China. Assim, é natural que se pense que alguns dos maiores credores dos EUA podem retaliar, parando de comprar sua dívida pública.

A percepção de um recuo mínimo pela China, dona de quase US$ 1,2 trilhão em Treasuries, causou nervosismo no mercado no início do ano. O governo federal dos EUA não pode arcar com custos de captação muito maiores em um momento em que o déficit público aumenta.

No entanto, a participação da China no mercado de títulos do Tesouro dos EUA está próxima do menor nível desde 2005, em 9,4 por cento. A parcela do Japão, detentor de US$ 1,06 trilhão, é de 8,4 por cento, a menor em pelo menos 18 anos. Ou seja, esses países não acompanharam o ritmo de emissão de dívidas pelo governo americano.

Essa conjuntura foi influenciada pelo programa de compra de títulos do banco central (Federal Reserve) após a crise financeira, que absorveu boa parte da oferta de papéis. No entanto, a carteira do Fed variou pouco entre o final de 2014 até o ano passado e diminuiu desde então. Já o mercado de Treasuries aumentou em mais de US$ 2 trilhões para US$ 14,7 trilhões. Ou seja, com ou sem guerra comercial, grandes compradores estrangeiros da dívida pública americana já estavam recuando lentamente.

"A importância relativa de Japão e China como detentores da dívida dos EUA diminuiu", embora ainda seja mais do que suficiente para mexer com os mercados, disse Gennadiy Goldberg, estrategista sênior de juros nos EUA da TD Securities, em Nova York. Se o total controlado por esses países não aumentar muito nos próximos anos, "esses números vão encolher ainda mais, considerando os déficits de trilhões de dólares que os EUA planejam".

No auge de sua participação, em 2004, o Japão era dono de quase 25 por cento de todas as Treasuries. Para a China, o ponto máximo foi em 2009, com uma parcela ao redor de 20 por cento. Nos últimos seis anos, investidores da Irlanda, Ilhas Cayman e Reino Unido foram os maiores compradores estrangeiros da dívida americana, segundo dados do Departamento do Tesouro.

Poucos traders esperam que China ou Japão vendam Treasuries em massa e de maneira abrupta. Afinal, as quantidades que detêm são tão grandes que um movimento desses prejudicaria o valor de seus próprios ativos.

"Nunca acreditei que a China poderia vender Treasuries intencionalmente para elevar os juros nos EUA. De que modo isso ajudaria (os chineses)?", questiona Eric Stein, codiretor de renda global da Eaton Vance. "Seria destruição mutuamente garantida no relacionamento entre EUA e China."

Agindo devagar

O mais provável é um recuo lento.

Em 10 de janeiro, a Bloomberg News noticiou que pessoas do alto escalão do governo chinês recomendavam diminuir ou interromper a compra de títulos do Tesouro americano. O rendimento do papel com prazo de 10 anos subiu 5 pontos-base em menos de uma hora, logo após a reportagem sair.

Embora a Administração Estatal de Câmbio da China tenha divulgado um comunicado afirmando que os investimentos são decididos de acordo com as condições do mercado, a reação ressalta que um país com tantos ativos precisaria se desfazer deles em ritmo gradual.

--Com a colaboração de Katherine Greifeld

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