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Cidade fabrica -- e odeia -- armas como nenhuma outra nos EUA

Prashant Gopal

09/03/2018 14h35

(Bloomberg) -- Para entender a grande divisão provocada pelas armas nos EUA, visite Springfield, no estado de Massachusetts, o berço da indústria de armas do país, que movimenta US$ 17 bilhões por ano.

Em uma contradição atordoante, Massachusetts, um estado notoriamente liberal -- com as mais rigorosas leis de controle de armas e a menor taxa de mortes por armas de fogo --, é o reino das armas. Segundo os dados federais mais recentes, Massachusetts responde por um quarto das 11,9 milhões de unidades fabricadas por ano, mais do que qualquer outro estado, segundo a Small Arms Analytics, uma firma de pesquisas do setor.

Springfield é a capital não oficial do chamado "Vale das Armas", um polo de fábricas e fornecedoras que engloba desde a Smith & Wesson e a Savage Arms, na região oeste de Massachusetts, até a Sturm Ruger & Co. e a Colt, no estado de Connecticut.

Além de revólveres pequenos e pistolas 9 mm, a Spring & Wesson, com sede em Springfield, fabrica populares rifles de assalto estilo AR-15 -- inclusive a própria arma usada para assassinar 17 estudantes e professores na escola de Ensino Médio Marjory Stoneman Douglas, em Parkland, na Flórida.

Mas os moradores não podem entrar em uma loja de armas local e comprar o último "rifle esportivo moderno" M&P15, como a Smith & Wesson prefere chamá-lo. De uma maneira geral, as próprias autoridades políticas de Springfield favorecem essas restrições e até mesmo impulsores econômicos da cidade preferem tirar o foco desse produto de exportação que contribui para 13.000 homicídios por ano nos EUA.

"A contradição é impressionante", disse John Rosenthal, que possui arma e é fundador da Stop Handgun Violence (Pare a Violência com Armas de Fogo), de Massachusetts. "Não poderíamos ter mais orgulho dos resultados de nossas leis para as armas e não poderíamos ter mais vergonha dos estragos causados pelas fabricantes de armas de Massachusetts em todo o país."

Kevin Kennedy, chefe de desenvolvimento econômico de Springfield, chama a Smith & Wesson de "uma boa cidadã". Mas prefere mudar de assunto e falar do plano de instalação de um cassino MGM Resorts International, que se tornará o maior empregador da cidade. A Smith & Wesson reduziu um quarto da força de trabalho da fábrica nos últimos 12 meses. Atualmente, a fábrica emprega cerca de 1.000 pessoas, disse Kennedy.

A Smith & Wesson recebe pouco destaque em um vídeo publicitário de dois minutos sobre a cidade, chamado "Springfield Rising" ("Springfield em Ascensão"). No vídeo são feitos elogios ao cassino, aos restaurantes e à nova fábrica de vagões de trem. Não há nenhuma menção a armas.

A câmera sobrevoa por uma fração de segundo a sede da Smith & Wesson, descrita apenas como uma "fabricante lendária". O vídeo passa rapidamente para o estacionamento da fábrica, mostrando carros abrigados sob uma série de painéis solares. E então surge escrita a frase "Projeto solar inovador", como se a Smith & Wesson estivesse no ramo de energia verde.

Como símbolo de seu isolamento, a sede da Smith & Wesson, um complexo de tijolos bege que parece uma prisão, rodeado de cercas altas e arame farpado, literalmente se destaca de boa parte da cidade de 150.000 habitantes e não está aberta ao público. A empresa, agora oficialmente chamada American Outdoor Brands, preferiu não comentar essa reportagem.

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