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Análise: BC dos EUA precisa dar uma lição nos mercados

Conor Sen

(Bloomberg) -- Como o pai de criança pequena que entende que "não" significa "pode ser", o banco central dos EUA eventualmente precisará deixar claro que "não" é "não" mesmo.

Integrantes do Federal Reserve afirmam que a meta de inflação de 2 por cento é "simétrica" e que desvios módicos e temporários para cima ou para baixo são aceitáveis. Investidores e empresas não acreditam neles.

Os mercados presumem que o Fed está blefando e que 2 por cento é de fato o teto do intervalo ao redor da meta. Ou seja, se a inflação der sinais de que irá romper o teto, as autoridades vão agir para esfriar a economia.

A única forma de o Fed manter (ou restaurar) sua credibilidade é cumprir a meta simétrica, permitindo desvios acima de 2 por cento, mesmo que empresas e investidores saiam chamuscados.

O Fed passa por um período de transição. Alguns integrantes do alto escalão estão chegando e outros saindo. Talvez, a pessoa mais interessante ali seja a diretora Lael Brainard, que na semana passada fez um discurso explicando como fatores negativos para a economia se tornam fatores positivos. Lembrando que a inflação está abaixo da meta há anos, ela disse que os ventos favoráveis à economia podem ajudar a "reancorar as expectativas de inflação no objetivo simétrico de 2 por cento". Ela acertou ao enfatizar que o fortalecimento dos fatores positivos pode ajudar a atingir essa meta porque, até o momento, faltam evidências disso.

Faltam evidências porque o tema mais consistente no setor corporativo dos EUA neste início de 2018 é o aumento dos custos dos insumos, mas com reajustes pequenos dos preços ao consumidor, o que resulta em compressão das margens de lucro. O exemplo mais recente é o da rede de lojas de descontos Dollar Tree. As ações desabaram 16 por cento na quarta-feira passada, após a empresa avisar que os custos com salários e frete vão corroer os lucros neste ano.

O Livro Bege do Fed, divulgado no mesmo dia, mostrou que o fenômeno acontece em diversas regiões do país. O escritório regional do Fed em Boston ressaltou a diminuição da ociosidade no mercado de trabalho e o potencial de aumento dos salários, porém nenhuma das empresas ouvidas pela instituição pretende elevar preços de modo substancial. O escritório regional de Nova York enfatizou que "as pressões advindas dos preços dos insumos se intensificaram, mas os preços de venda continuaram subindo modestamente, de modo geral".

Há duas razões para essa dinâmica de preços e ambas sugerem que o Fed precisa permitir o sobreaquecimento da economia.

A primeira razão é que muitos empreendimentos não têm poder de definição de preços e podem desaparecer se a economia continuar se aquecendo e custos com salários e outras despesas seguirem em alta. São estas as empresas que realmente precisam fechar as portas e permitir que seus funcionários sejam absorvidos por firmas mais produtivas e que pagam mais.

O segundo motivo é que as empresas não acham que o Fed tem credibilidade em se tratando de inflação e estão trapaceando o ciclo econômico. Uma companhia que acredita que o Fed sempre reagirá ao pleno emprego e à inflação em 2 por cento com aumento de juros a ponto de esfriar a economia e criar uma recessão entende que a decisão certa é jamais investir em ampliação da capacidade ou da produtividade quando a economia está aquecida. Afinal, por que pagar caro por capacidade que não será usada quando a economia piorar?

Na mesma linha de raciocínio, é melhor manter vagas abertas do que elevar salários porque, quando a economia piorar, será possível contratar as mesmas pessoas pagando menos. E não é preciso elevar preços de modo agressivo e correr risco de perder clientes ou participação de mercado. Isso porque, em uma recessão, quando os custos caem, a margem de lucro se reestabelece em um patamar generoso, sem necessidade de recorrer a reajustes de preços.

Em vez disso, a empresa pode ignorar as pressões inflacionárias e manter uma estratégia de recomprar ações, deixando que o Fed lide com a questão da inflação. Isso funciona para os investidores no curto prazo. Mas é um problema para a economia porque prolonga o desemprego e distorce salários.

É esta a mentalidade que precisa ser superada se o Fed realmente quiser que sua palavra tenha poder na economia. Porém, isso tem custo. As empresas que não investirem em capacidade ou aumento da produção ou que não subirem salários e preços ficarão espremidas em um ambiente mais desafiador. Companhias que pagam pouco a seus funcionários ficarão sem gente para desempenhar funções importantes ou enfrentarão esforços de sindicatos que ameaçam seus modelos trabalhistas. Não elevar preços eventualmente colocará em jogo a viabilidade de seus negócios. Não investir em capacidade ou aumento da produtividade colocará empresas em desvantagem em relação a quem faz esses investimentos.

Durante anos, a principal tarefa do Fed era dar suporte ao crescimento econômico para fazer com que o mercado de trabalho voltasse a uma situação de pleno emprego. A instituição precisa fazer uma escolha que só aparece no final de um ciclo econômico: permitir que a economia se aqueça a ponto de impedir que as empresas trapaceiem o sistema ou pisar no freio da expansão econômica e novamente recompensar quem desconfiou de sua credibilidade em relação à inflação.

Esta coluna não necessariamente reflete a opinião do comitê editorial ou da Bloomberg LP e seus proprietários.

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