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Chernobyl se tornou insólito experimento de energia ecológica

James M. Gomez e Kateryna Choursina

12/03/2018 12h16

(Bloomberg) -- A uns 90 metros das ruínas do lugar onde aconteceu o pior desastre nuclear do mundo, uma teia de quase 4.000 painéis fotovoltaicos está instalada em cima de uma placa grossa de concreto que fica sobre um túmulo de resíduos radiativos.

Quando se fala em energia não poluente, é difícil imaginar um lugar menos provável do que a infame usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. Mas os preparativos finais para gerar eletricidade novamente, dessa vez com a energia do sol, mais segura, estão em andamento.

É parte do plano do país para se tornar menos dependente das exportações de gás russo, cada vez menos fiáveis, e da oferta irregular de carvão. Dominada pela estrutura cinza de contenção de 91 metros de altura que sepulta o reator destruído, a zona de exclusão de Chernobyl é quase do tamanho de Luxemburgo, e as autoridades afirmam que ela é vital na tentativa da Ucrânia de dobrar sua produção de energia solar.

A Solar Chernobyl está na vanguarda do mais novo experimento para dar uma nova vida a um lugar que é sinônimo de catástrofe, depois que tentativas anteriores fracassaram. A empresa é uma parceria entre a Rodina Energy, do empreendedor ucraniano Yevgen Variagin, e a Enerparc, com sede em Hamburgo.

"Nossa ideia foi utilizar o terreno dos resíduos, que é inadequado para qualquer outra coisa, e desenvolver o projeto de investimento para fazer negócios em Chernobyl", disse Variagin, que era um estudante de 10 anos em Kiev quando o desastre aconteceu, em abril de 1986, enquanto mostrava os painéis solares instalados nos últimos 30 dias.

Desastre

A usina de Chernobyl era a base da estratégia nuclear da União Soviética na Ucrânia.

Até que o quarto reator explodiu, cobrindo a área com uma radiação que matou 49 pessoas imediatamente e deixou milhares de outras com problemas de saúde permanentes e, em muitos casos, fatais. A região está repleta de vilarejos abandonados e antigas fazendas de laticínios que estão sendo lentamente engolidos pela densa floresta.

"A realidade é que parte da terra estará abandonada por gerações, até mesmo por um milhão de anos", disse Yevgen Gucharenko, funcionário de uma agência que acompanha grupos de turistas e outros visitantes. Ele tinha 13 anos quando o reator explodiu. "Mas existem algumas áreas limpas, onde é suficientemente seguro para visitas breves."

Metas

É aí que o lugar encaixa no grande plano de energia renovável. A Ucrânia quer aumentar a produção de energia solar, hidrelétrica, eólica, de biomassa e biogás a 11 por cento da geração de eletricidade até 2020, disse Yulia Kovaliv, diretora do Conselho Nacional de Investimentos da Ucrânia.

Com uma capacidade acumulada de cerca de 1,2 gigawatt de energia solar até o fim de 2017, a Ucrânia já é um "nome de peso", a par de países europeus como a Áustria, segundo James Evans, analista da Bloomberg Intelligence.

"Qual o sentido de transformar campos agrícolas em parques solares se há tantos territórios afetados pela atividade humana que estão danificados e não servem para nenhuma outra coisa?", disse Variagin, que foi evacuado no carro do avô para a zona rural após o desastre. "Para nós, este projeto tem a ver com responsabilidade social. É a coisa certa a fazer."

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