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Mercado de papéis de curto prazo nos EUA vive transformação

Liz Capo McCormick e Sid Verma

13/03/2018 11h26

(Bloomberg) -- Investidores do mercado de renda fixa dos EUA estão bastante focados na perspectiva de elevação dos rendimentos dos títulos de longo prazo emitidos pelo Tesouro americano. Enquanto isso, uma mudança monumental está em curso na ponta mais curta da curva, no mercado de instrumentos de curtíssimo prazo, o chamado money market.

A Libor (taxa do mercado interbancário em Londres) e os rendimentos dos papéis de curto prazo do Tesouro dos EUA estão em patamares que não se via desde 2008. As medidas de aperto monetário do banco central americano (Federal Reserve) criaram o ambiente para aumento das taxas, mas existe outra força por trás do movimento de alta neste ano: a enxurrada de papéis emitidos para cobrir o alargamento do déficit público dos EUA.

A elevação dos custos de captação de curto prazo tem implicações para investidores e bancos, que precisam pagar mais na competição por recursos.

"Estamos em um novo paradigma", disse Jerome Schneider, que comanda a mesa de financiamentos de curto prazo da Pacific Investment Management Co. (Pimco). "O foco claro do mercado é de onde virá a demanda incremental para absorver essa oferta."

O Tesouro acelerou as emissões de dívida neste trimestre. A emissão líquida deve superar US$ 400 bilhões, a maior parte em instrumentos com prazo de até um ano. A colocação de títulos com prazo de quatro semanas aumentou para US$ 65 bilhões, vindo de US$ 15 bilhões recentemente.

A marcha para cima da Libor tem consequências amplas, apesar dos esforços dos órgãos reguladores para substituí-la após um escândalo que trouxe à tona a manipulação da taxa. Aproximadamente US$ 350 trilhões em produtos financeiros e empréstimos são atrelados à Libor, sendo que boa parte desses instrumentos estão vinculados à versão em dólar da mesma. Junto com o rendimento dos títulos do Tesouro americano com vencimento em um ano, a Libor é um dos índices utilizados para definir os juros flutuantes de financiamentos imobiliários nos EUA.

O spread da Libor sobre a taxa de swap overnight (conhecida como Libor-OIS) também se ampliou, o que é mais um sinal de que os bancos enfrentam custos de captação mais altos. A diferença quase dobrou neste ano para cerca de 45 pontos-base.

Interesse doméstico

A nova legislação tributária que o Congresso ? controlado pelo Partido Republicano ? aprovou em dezembro oferece menos incentivo para algumas empresas americanas manterem dinheiro no exterior. Isso reduz a demanda por instrumentos não garantidos em dólares (como Libor e notas promissórias) e contribui para a elevação das taxas de juros.

Para investidores, talvez haja vantagem no novo cenário. Após anos de retorno próximo de zero, o aumento dos juros impulsiona a demanda por fundos que atuam nesse mercado. O total de ativos em fundos que detêm apenas títulos de curto prazo emitidos pelo governo americano subiu de US$ 2,07 trilhões no ano passado para US$ 2,26 trilhões. E ao passo que o Fed eleva a taxa básica de juros (a expectativa é de novo acréscimo neste mês), a entrada de recursos deve continuar.

O apelo maior dos instrumentos do Tesouro de curto prazo obriga os bancos a pagar mais na competição por recursos, de modo que oferecem retorno melhor nas notas promissórias que usam em suas captações de curto prazo.

"Os bancos ainda precisam de fundos e precisam atrair investidores", disse Schneider.

Assim, o mercado de notas promissórias dos EUA, que andava mal das pernas, está renascendo e a quantia em circulação está aumentando.

Paralelamente, o aumento na oferta de títulos de curto prazo ampliou a quantia em colateral disponível no mercado de financiamentos garantidos, provocando a alta das taxas. Para corretoras, a elevação das taxas em operações de recompra encarece o financiamento de dívidas.

O salto nas taxas de curto prazo também tem implicações para investidores do mercado acionário, lembra Dennis Debusschere, estrategista-chefe de carteiras da Evercore ISI. Ele citou um estudo segundo o qual 58 por cento das ações listadas nos EUA não entregaram retorno superior ao dos títulos do Tesouro americano com prazo de um mês entre 1926 e 2015.

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