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China tem cartadas para bancar aposta maior de Trump: Gadfly

David Fickling

(Bloomberg) -- Quando um jogador de pôquer dobra uma aposta elevada, é sinal de força ou de otimismo exagerado?

É o que os investidores precisam se perguntar depois que o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou impor tarifas a mais US$ 100 bilhões em importações chinesas.

De certo modo, essa jogada -- se sancionada -- poderia mudar o rumo deste conflito a favor de Washington.

A reciprocidade às tarifas de Pequim, somada aos US$ 53 bilhões em comércio já ameaçados, ampliaria a capacidade da China de retaliar por meios convencionais. As importações chinesas dos EUA superaram o valor de US$ 153 bilhões em apenas dois anos desde que o país asiático ingressou na Organização Mundial do Comércio, em 2001 -- e, nestes casos, apenas por alguns bilhões ou mais.

Enquanto isso, os EUA ainda poderiam ameaçar com outros US$ 350 bilhões aproximadamente no comércio de produtos na direção oposta, graças ao enorme déficit comercial com a República Popular da China.

Isso pressupõe, no entanto, que a China só recorreria aos meios convencionais. Mas a experiência recente sugere outra coisa.

Basta lembrar a experiência da Hyundai Motor. A fabricante de veículos sul-coreana foi a segunda maior marca na China durante a maior parte da última década. Até que o aumento das tensões, geradas pela decisão de Seul de implantar um escudo antimísseis contra a Coreia do Norte, atingiu o ponto de ebulição no começo do ano passado.

Veículos de imprensa estatais e contas em redes sociais rapidamente iniciaram um boicote não oficial aos produtos coreanos. Yang Bingyang, uma ex-modelo conhecida na internet como Ayawawa, fez uma pausa nos conselhos sobre beleza e relacionamentos para convocar seus 2,7 milhões de seguidores no Weibo a aderir ao boicote.

"Cancelarei minhas viagens à Coreia do Sul e deixarei de cooperar com empresas coreanas... Cada centavo que gastamos é um voto no nosso mundo futuro!", teria dito ela, segundo declarações publicadas pelo jornal estatal Global Times.

A situação ganhou toques ainda mais sombrios na escalada das tensões entre a China e o Japão, em 2012, devido à propriedade de ilhas disputadas a nordeste de Taiwan. Multidões de nacionalistas saquearam uma concessionária da Toyota e incendiaram uma fábrica da Panasonic.

Existem muitas formas possíveis de a China exercer pressão nesse sentido. Os EUA são o maior investidor de fora da Ásia na China, com cerca de 3 por cento dos investimentos estrangeiros diretos, fatia avaliada em US$ 41 bilhões em 2016. Como a Hyundai aprendeu por conta própria, os ativos mantidos na China podem perder valor rapidamente se você entrar na lista negra de Pequim.

O impacto pode ser sentido muito além dos suspeitos usuais. Por enquanto, a maioria das empresas dos EUA com receitas significativas na China foi poupada da ira retaliatória do país, mas empresas de tecnologia como Apple, Qualcomm e Intel entrarão diretamente na linha de fogo se a situação esquentar.

Boeing, General Electric e United Technologies, com significativas divisões aeroespaciais chinesas até o momento praticamente incólumes, também podem virar alvo. A Caterpillar corre o risco de ficar de fora da bonança de infraestrutura da iniciativa Um Cinturão, Uma Rota.

Outras empresas podem ser prejudicadas por ações locais que mal intervêm no comércio formal de mercadorias.

A Las Vegas Sands, controlada pelo maior doador político conservador de 2016, Sheldon Adelson, tecnicamente não exporta muito para a China -- mas se as autoridades de Macau decidirem cancelar as licenças de seus cassinos, que deveriam ser renovadas em 2022, a empresa pode perder três quintos das receitas em um piscar de olhos.

Apenas alguns milhares dos quatro milhões de carros vendidos pela General Motors na China a cada ano são importados dos EUA, mas a experiência da Hyundai mostra que os veículos restantes, fabricados localmente, também podem ser duramente atingidos. A Coca-Cola mantém apenas em torno de 5 por cento de seus ativos líquidos na China, graças ao uso de engarrafadoras locais de propriedade da Cofco e da Swire Pacific, mas não gostaria de sofrer um boicote dos consumidores no terceiro maior mercado do sistema Coca-Cola.

No papel, os EUA podem estar em vantagem. Ainda assim, qualquer jogador de pôquer sabe que não se vence por ter as melhores cartas, mas por conhecer as fraquezas do oponente. A arma mais poderosa de Pequim -- prejudicar empresas destacadas para fazer o presidente Trump perder o apoio da comunidade empresarial dos EUA -- mal foi usada, até o momento, neste conflito.

Se as apostas aumentarem, a China terá cartas potentes na manga.

Esta coluna não reflete necessariamente a opinião da Bloomberg LP e de seus proprietários.

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