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Tensão comercial põe em xeque o crescimento global sincronizado

Sid Verma e Dani Burger

(Bloomberg) -- A tensão comercial está voltando as atenções para outra ameaça para os mercados: a eventual diminuição do crescimento global sincronizado.

Tal cenário traria a possibilidade de concretização de um ambiente mais complexo que pegaria investidores desprevenidos, com aumento da correlação entre os ativos e recuo do apetite por risco.

As bolsas globais derraparam na sexta-feira, após o presidente americano, Donald Trump, dar ordens para seus subordinados estudarem tarifas sobre mais US$ 100 bilhões em bens importados da China.

A disputa comercial ocorre em um momento delicado. O indicador do Morgan Stanley que acompanha os ciclos dos mercados desenvolvidos se aproxima de patamar observado logo antes das últimas recessões. A versão do indicador para os EUA - que contempla índices de economia, crédito e atividade empresarial - está perto do pico atingido em 2007. No Japão, o índice cai após atingir no ano passado o maior nível em quase três décadas.

"A expansão econômica global sincronizada está em curso", escreveu Richard Turnill, estrategista-chefe global de investimentos da BlackRock, em nota enviada a clientes nesta semana. "Mas visualizamos uma maior variedade de potenciais desfechos adiante à medida que o ciclo amadurece."

O cenário básico ainda é de avanço coordenado das economias - uma benção para as bolsas globais --, mas não é mais dado como certo que os mercados todos caminharão na mesma direção, segundo o estrategista. A postura protecionista do governo americano ameaça o ciclo industrial e a trajetória de desvalorização do dólar que sustentou a ascensão dos mercados emergentes. Paralelamente, o estímulo fiscal aumenta o risco de superaquecimento da economia americana, o que elevaria a volatilidade em várias classes de ativos, alertou ele.

"Seria uma reversão da sincronização por meio de uma guerra tarifária que causa aperto das condições financeiras e alta volatilidade nos mercados", disse Ben Emons, economista-chefe da Intellectus Partners. "Isso poderia causar uma reprise do período 2015-2016, quando a incerteza sobre a economia global atingiu mercados altamente alavancados."

O índice que acompanha a volatilidade implícita do S&P 500 (calculado pela Cboe e conhecido como VIX) tem ficado acima de 20 nos últimos pregões, patamar nunca atingido em 2017. Talvez seja sinal de um novo contexto e não apenas sobra do abalo ocorrido em fevereiro ou da queda recente das ações de tecnologia.

A curva do VIX mostra que os preços dos contratos futuros que vencem no curto prazo permanecem contidos, comparado ao salto extremo de fevereiro. É sinal de que o tombo recente das bolsas "não foi de cunho emocional, mas um ajuste a um pano de fundo estrutural de maior volatilidade", segundo Dennis Debusschere, estrategista-chefe de carteiras da Evercore ISI.

A convergência do ritmo de crescimento econômico de diversos países ajudou a impor um teto à volatilidade dos mercados no ano passado e impulsionou as bolsas globais. Com a dispersão ainda reduzida nos dados econômicos de países desenvolvidos e manutenção da confiança de consumidores e empresários, ainda existem argumentos para quem está otimista com o mercado acionário.

Mas vem por aí um movimento descendente, na opinião de estrategistas da Sanford C. Bernstein.

"Esperamos que o mundo fique menos sincronizado ao longo do próximo ano, ao mesmo tempo em que o nível de crescimento diminui", afirmou em relatório a equipe liderada por Inigo Fraser-Jenkins.

Enquanto cresce a ansiedade em relação a um ambiente econômico mais desigual, os preços dos ativos ficam menos atrelados a seus fundamentos subjacentes, segundo a equipe da Bernstein. Em vez disso, as forças macroeconômicas podem se sobrepor a fatores como o fluxo de caixa das empresas, provocando aumento das correlações. E sem uma economia profundamente sincronizada, as variações na taxa de desconto também impactam mais os preços dos ativos.

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