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Prêmio ao Exército gera guerra sangrenta por ouro na Venezuela

Andrew Rosati

09/04/2018 14h57

(Bloomberg) -- Na capital do ouro da Venezuela, os guardas nacionais bloqueiam as estradas. Os comboios militares e as motos circulam enquanto os soldados vigiam atentamente atrás de postos de controle feitos com sacos de areia ou patrulham com os rostos cobertos e portando fuzis.

O Exército luta há meses para controlar El Callao, a cidade mais perigosa deste país perigoso e crucial nas iniciativas para desenvolver uma região rica em minerais que o governo chama de Arco Minero del Orinoco. O presidente Nicolás Maduro concedeu esse prêmio generoso ao Exército, medida que ajuda a garantir o poder do governante impopular. Mas a tomada de controle foi marcada por sangue e bala quando os soldados entraram nos bairros e nas minas clandestinas dos 181.000 quilômetros quadrados que vão da Colômbia até a Guiana, impondo-se aos chefes das gangues locais e ficando com a receita legal e a ilícita.

Em 10 de fevereiro, o Exército confiscou armas, queimou veículos e matou 18 civis -- entre eles uma mulher e um jovem -- em um dos confrontos mais mortais desde o início do projeto. Muitas das vítimas foram baleadas na cabeça e no rosto, de acordo com fotos da polícia e atestados de óbito obtidos pela Bloomberg.

Os soldados "sabem que podem se aproveitar do uniforme que usam", disse Miguel Linares, 31, um caminhoneiro que levava gasolinas para as minas -- e cujo irmão de 34 anos, Tigue, e o amigo, Carlos Alfredo Brito, estavam entre os mortos.

"Você tem que pagar", disse ele. "Eles podem botar você na cadeia."

Apoio

Maduro enfrentará a eleição de 20 de maio com o apoio de apenas cerca de um quinto da população e está cedendo grande setores da economia para o Exército, de 160.000 membros, o poder mais forte em um Estado falido. Oficiais da ativa e aposentados ocupam 14 dos 32 postos do Gabinete. Os soldados substituíram muitos dos 80 líderes da petroleira estatal presos por Maduro desde agosto. Os portos foram militarizados e o Ministério da Defesa controla o abastecimento de alimentos do país faminto.

O Arco Minero é outra franquia lucrativa concedida por Maduro.

"É um incentivo para a lealdade", disse Rocío San Miguel, presidente do grupo de fiscalização Control Ciudadano, em Caracas. "É um indicativo de onde estão as forças do poder na Venezuela. O poder militar é hegemônico e controla tudo."

Maduro promoveu centenas de oficiais desde que se tornou presidente em 2013 -- há agora cerca de 1.300 generais e almirantes. Membros do alto escalão do Exército controlam indústrias legais, mercados negros e a segurança do país, criando um "relacionamento perverso", disse Diego Moya-Ocampos, analista para as Américas da IHS Markit, uma consultoria de Londres.

Em El Callao, anos de receitas decrescentes com petróleo e políticas estatistas malsucedidas fizeram com que o governo almejasse depósitos de ouro de até 8.000 toneladas, que seriam o segundo maior do mundo depois da Austrália. O Arco Minero produziu 8,5 toneladas em 2017 e Maduro espera aumentar a produção para 24 toneladas até o fim do ano, de acordo com o ministro de Mineração, Víctor Cano. A Venezuela precisa desesperadamente disso. Estima-se que o produto interno bruto do país cairá cerca de 15 por cento neste ano, segundo o Fundo Monetário Internacional, uma queda acumulada de quase metade em cinco anos.

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