Bolsas

Câmbio

Há caixões no caminho da bilionária venda de ativos da Petrobras

Sabrina Valle

(Bloomberg) -- Volta e meia, ao chegar ao trabalho, Anelise Lara precisa desviar de caixões colocados na entrada da Petrobras no Rio de Janeiro, de onde gerencia o programa de desinvestimento de US$ 21 bilhões da petroleira.

Os enterros simbólicos são um protesto de trabalhadores, temerosos de que os ativos que a companhia tenta se desfazer sejam destinados, a um preço baixo, a empresas estrangeiras mais preocupadas com lucro do que com gente. Para eles, "privatização" é um conceito difícil engolir. Para Lara, trata-se de um passo necessário para a recuperação de uma empresa abalada por um oneroso escândalo de corrupção e com o maior endividamento da indústria do petróleo.

A liquidação de ativos é "a melhor maneira de sanear nossa empresa", escreveu Lara em carta recente a funcionários. "Quanto mais cedo reduzirmos a nossa dívida, mais rapidamente voltaremos a crescer de forma sustentável e robusta".

A Petrobras anunciou na terça-feira seu melhor resultado trimestral desde 2013, ou desde antes da Lava Jato, quando a produtora era beneficiada por um barril de petróleo acima de US$ 100 no mercado internacional.

O presidente da Petrobras, Pedro Parente, disse que deseja assinar os contratos até o fim do ano. Ainda faltam cerca de US$ 16 bilhões para a Petrobras atingir a meta, mas há nove acordos em fase vinculante, a um estágio da assinatura, segundo apresentação da empresa.

"Estamos bastante confiantes", disse Parente na terça-feira.

Por trás da confiança do presidente, está a aposta em Lara e sua equipe.

Sistema de gasodutos

Em dezembro, a equipe de Lara ajudou a projetar a venda de uma participação em um megacampo de US$ 3 bilhões à norueguesa Statoil e abriu para os investidores o capital da BR, a maior rede de postos de combustíveis do Brasil. Próximo ativo na fila: uma rede de gasodutos de 4.500 quilômetros. Sua venda ajuda a deixar para trás o quase monopólio da Petrobras em gás natural no Brasil, mas pode render uns US$ 8 bilhões à companhia.

A Petrobras está atualmente em fase final de negociação com três interessadas que apresentaram ofertas pelo sistema, lideradas por um grupo que inclui a empresa francesa Engie. O timing sugere que a venda poderia acontecer antes da eleição presidencial programada para outubro, que coloca os rumos da estatal em xeque.

Alguns candidatos presidenciais têm apoiado o programa de venda de ativos de Parente, o maior do setor de petróleo. Outros o questionam. Enquanto isso, Lara é uma ilha de serenidade dentro de um processo às vezes caótico que tem atraído protestos frequentes dos trabalhadores e ceticismo de alguns membros do Congresso. Seu nome não é alvo de ataques, os caixões contêm os nomes de seus chefes, Parente e o diretor financeiro, Ivan Monteiro.

'Especialmente difícil'

"É um trabalho especialmente difícil", disse Giovani Loss, sócio do escritório de advocacia Mattos Filho, que trabalhou com Lara e a empresa em acordos anteriores. "Ela precisa enfrentar questões de ideologia, questões políticas, órgãos de controle exigentes, e resistência às vezes até mesmo dentro da empresa. Sem contar a meta em si, que já é um desafio enorme."

Nesse ambiente, Lara -- nomeada para liderar venda de ativos em maio de 2016 -- é considerada a pessoa certa no momento certo para uma atividade desse tipo. Apesar de Lara e Parente terem declinado entrevista sobre os desafios da executiva, outros não hesitam em destacar seus atributos.

"Quando se coloca muita gente boa na mesa, corre-se o risco de ninguém se ouvir", disse Jorge Mitidieri, diretor da fornecedora Ocyan, ex-Odebrecht Óleo e Gás. "Ela escuta e faz com que todos se escutem, é preciso ter muita experiência para fazer isso. É impressionante vê-la trabalhar."

Mantendo o foco

Mitidieri e Lara estavam em lados opostos da mesa quando a empresa dele estava negociando a plataforma pioneira para a maior reserva já leiloada no Brasil, a Libra (hoje Mero), que começou a produzir em novembro. A executiva tem o dom de evitar controvérsias e manter os executivos em sintonia durante negociações que podem incluir ao mesmo tempo figurões de grandes petroleiras internacionais.

Jorge Camargo, ex-diretor da divisão internacional da Petrobras e atualmente analista do centro de estudos Cebri, diz que a executiva se impôs naturalmente no cargo por reunir uma série de atributos que a qualificam para liderar a maior venda de ativos do setor de petróleo no mundo. Sobretudo a "maneira doce e tranquila" de Lara de convencer as pessoas, "uma habilidade fundamental para um negociador", diz.

"Ela tem uma carreira brilhante de três décadas na empresa", disse ele em entrevista. "Ela é respeitada, bem preparada, um dos melhores quadros da Petrobras."

Lara supervisiona todos os negócios importantes da Petrobras no departamento de Aquisições e Desinvestimentos. Como a dívida da empresa era de mais de US$ 100 bilhões em 2017, o grupo dela vem trabalhando mais com o "D" de desinvestimento que com o "A" de aquisições, disse ela a subordinados.

A Petrobras focou em petróleo e pôs à venda quase todos os ativos considerados não fundamentais. Na prateleira: toda a sorte de negócio, inclusive dos setores de biocombustíveis, petroquímico, refino e campos de petróleo e gás no Brasil e no exterior.

Início em 1986

Lara entrou na Petrobras em 1986 e formou-se em Engenharia de Petróleo. Em 1994, ela obteve um doutorado em Ciências da Terra pela Université de Paris 6, na França.

Quando foi nomeada para guiar o programa de desinvestimento, logo enfrentou um baque. O Tribunal de Contas da União (TCU) suspendeu todos os desinvestimentos da Petrobras, alegando que a empresa precisava ser mais transparente em seus negócios para evitar direcionamento. Todas as negociações em curso voltaram à estaca zero.

Lara tomou a frente, foi a Brasília pessoalmente negociar novas regras com o TCU e, meses depois, destravou as vendas.

"Vender ativos em uma estatal é especialmente difícil", disse Camargo, o ex-Petrobras. "Você tem uma pessoa tocando as coisas para a frente e outras 20 puxando para trás."

Maior desinvestimento

Agora, Lara está se aproximando daquele que poderia ser a maior venda em valor já realizada pela Petrobras, uma rede de gasodutos que se estende por 10 estados brasileiros. Lara está em processo de renegociação dos termos de contrato com um grupo liderado pela Engie. Valores não foram revelados.

Quando os novos termos forem definidos, a empresa deverá chamar de volta os outros dois grupos que fizeram lances, para uma segunda rodada de ofertas. A Mubadala Development, juntamente com a EIG Global Energy Partners, e a Macquarie Group, com sede em Sidney, apresentaram duas ofertas separadas à Petrobras em 19 de abril.

Uma decisão pode ocorrer dentro de algumas semanas, levando os desinvestimentos da empresa a cerca de dois terços da meta de US$ 21 bilhões para 2017 e 2018.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Newsletter UOL

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos